Capítulo 24 de 94
CAPÍTULO 24 — O PADRE E A FÉ
A Paróquia de São Judas Tadeu erguia-se em uma colina esquecida na periferia da Zona Sul paulistana, onde o asfalto das avenidas principais dava lugar a ruas de terra vermelha e vielas ladeadas por barracos de alvenaria aparente.
A pequena igreja de tijolos sem reboco e telhas de barro estava vazia no início daquela noite fria de terça-feira. No altar simples, duas velas de parafina iluminavam a imagem humilde do santo padroeiro das causas desesperadas. Sentado no terceiro banco de madeira rústica, um homem de cinquenta e cinco anos vestindo batina preta gasta e estola roxa lia um breviário sob a luz fraca de uma lamparina.
Ao lado dele, no chão de cimento queimado, descansava uma maleta médica de lona contendo ataduras, antissépticos comuns e pequenos frascos de pomada à base de ervas.
Fernando entrou em silêncio. Seus sapatos ecoaram suavemente na nave da capela. O sacerdote não se assustou; fechou o livro de orações devagar e olhou para o visitante com olhos castanhos profundos, marcados pelas olheiras de quem velava enfermos a noite inteira.
— A confissão comunitária é apenas aos sábados, meu filho — disse o sacerdote com um sorriso cansado e acolhedor. — Mas se o peso no peito for urgente, a misericórdia de Deus não tem hora de expediente.
— Eu não vim para confessar meus pecados, Padre Lúcio — respondeu Fernando, sentando-se no banco em frente a ele. — Eu vim oferecer um remédio para a sua crise de fé.
O padre imobilizou-se por um instante. Ele olhou atentamente para a postura comum de Fernando, para a camisa social gasta e para os óculos hexagonais de cristal que repousavam na ponte de seu nariz.
— Crise de fé? — Lúcio soltou um riso curto e sem humor, passando a mão pelos cabelos grisalhos. — Eu passei os últimos quinze anos como curandeiro oficial da Guilda Imperium. Eu vi crianças de catorze anos serem dopadas com estimulantes de mana para limpar dungeons de Rank C enquanto os diretores tomavam uísque importado em salas refrigeradas. Vi caçadores com núcleos rompidos serem jogados na calçada deste bairro porque o tratamento custava mais do que a cota de seguro permitia. Onde estava o sistema sagrado quando essas pessoas foram transformadas em adubo corporativo?
— O sistema nunca foi sagrado, Padre — disse Fernando, com a clareza de quem passou a vida inspecionando a mecânica fria do mundo. — Ele é um código de software. Uma infraestrutura biológica arcaica mantida por homens que confundiram privilégios de acesso com divindade.
Lúcio franziu a testa, intrigado pela terminologia técnica vinda de dentro de uma capela periférica.
— E o que você é? Mais um mercenário prometendo salvar o bairro em troca de doações para uma nova guilda?
Em resposta, Fernando estendeu a mão esquerda para o ar entre eles e ativou o Root em nível de diagnóstico pastoral:
> [ROOT CONSOLE: LEITURA VITAL // PADRE LÚCIO S.]
> [CLASSE: CURANDEIRO PRIMORDIAL // RANK B (INATIVO)]
> [ESTADO DE MANA: EXAUSTÃO CRÔNICA POR DOAÇÃO NÃO-RETRIBUTIVA]
> [STATUS: 84 CAÇADORES E CIVIS MANTIDOS VIVOS POR CURA CLANDESTINA]
As linhas douradas revelaram a malha do coração de Lúcio: não havia corrupção, avareza ou ambição. Havia apenas um filamento denso e luminoso de compaixão pura que se desgastava diariamente para suturar feridas alheias sem cobrar um único centavo.
— Você não perdeu a fé em Deus, Padre — disse Fernando com solenidade. — Você perdeu a fé nos mercadores do templo que privatizaram o milagre da cura. Eu estou montando uma família de pessoas que o sistema descartou. Gente como o Bruno, a Margarida, o Raul e a Sofia. Nós vamos arrancar as chaves das mãos da Arcadium. E nós precisamos de um médico de almas que lembre a todos nós por que vale a pena continuar humanos.
O padre olhou para as linhas douradas que pairavam no ar da igreja, depois para a imagem de São Judas no altar e, finalmente, para o rosto determinado de Fernando.
Lúcio respirou fundo, fechou a maleta de lona com um estalo firme e se levantou.
— Se a sua batalha é para devolver a dignidade aos que foram humilhados, filho... então você acaba de encontrar o capelão da sua guilda.