Capítulo 23 de 94
CAPÍTULO 23 — A MAGA SILENCIADA
No coração do Bixiga, espremido entre cantinas tradicionais e velhas oficinas de alfaiataria, ficava um ateliê discreto cuja vitrine de madeira ostentava letras douradas desbotadas: *Restauração de Livros Raros e Caligrafia Antiga*.
O interior do estabelecimento cheirava a papel envelhecido, cola de peixe, cera de abelha e um aroma tênue de alfazema. Pilhas de códices e partituras encadernadas em couro erguiam-se como pequenas torres em mesas compridas de mogno.
Atrás de uma bancada iluminada por uma luminária articulada de luz quente, uma jovem de vinte e quatro anos com cabelos negros presos num coque despretensioso trabalhava na colagem de uma lombada de velino. Usava um avental de sarja escura sobre roupas simples de algodão.
Ao ouvir o ranger suave do assoalho sob os passos de Fernando, ela ergueu os olhos escuros e altivos, mas não pronunciou uma única palavra.
Em vez de voz, os dedos ágeis de sua mão esquerda desenharam uma sequência veloz de três runas de mana translúcida que flutuaram no ar entre eles como caracteres esculpidos em vidro fosco.
> [SISTEMA: DETECTADA FORMAÇÃO RÚNICA DE INQUIRIÇÃO]
> [TRADUÇÃO FONÉTICA: 'QUEM É VOCÊ E O QUE BUSCA NESTA OFICINA?']
Fernando parou a uma distância respeitosa. Ele não tentou falar alto nem adotou o tom paternalista comum dos caçadores quando lidavam com despertos que haviam perdido faculdades biológicas.
— Meu nome é Fernando Andrade — disse ele em tom baixo e sereno. — Fui mandado pelo Bruno e pela Dona Margarida. Sei quem você é, Sofia.
A jovem franziu o cenho com desconfiança. Seus dedos moveram-se novamente, tecendo runas mais afiadas e brilhantes:
> [TRADUÇÃO FONÉTICA: 'ELES MANDARAM UM BUROCRATA DE ÓCULOS REMENDADOS? AS GUILDAS NÃO TÊM MAIS LIMITES PARA O ESCÁRNIO?']
Fernando sorriu de leve e ajustou as lentes de Rafael. Ele focalizou o pescoço da jovem. Sob a gola fechada da camisa de linho, as lentes revelaram uma malha intrincada de linhas negras de mana que se enrolavam ao redor da traqueia e das cordas vocais dela como uma gargantilha de arame farpado energético.
> [DIAGNÓSTICO VITAL: SELO DA MORDAÇA // ORIGEM: CONSELHO DAS GUILDAS]
> [TIPO: RESTRIÇÃO PUNITIVA DE SILENCIAMENTO ARCÂNICO]
> [DURAÇÃO: 4 ANOS // EFEITO SECUNDÁRIO: ATROFIA PROGRESSIVA DE MANA]
— O Conselho te silenciou há quatro anos quando você se recusou a falsificar as runas de contenção de uma Fenda no Porto de Santos, não foi? — perguntou Fernando, a voz carregada de uma indignação ética profunda. — Eles colocaram um selo de restrição para que você não pudesse cantar encantamentos nem denunciar o superfaturamento de cristais na imprensa.
Sofia empalideceu. As mãos dela desceram para a bancada, e pela primeira vez um vislumbre de vulnerabilidade infantil surgiu em seu olhar reservado.
Ela desenhou uma única runa trêmula no ar: "POR QUÊ?"
— Porque eu sou o novo Administrador do sistema — respondeu Fernando, aproximando-se da bancada e estendendo o dedo indicador direito, onde uma centelha dourada de Root puro brilhava com suavidade cristalina. — Eu não posso devolver sua voz em cinco minutos sem rasgar os tecidos cicatrizados da sua garganta. Mas eu posso fazer isto.
Com uma precisão milimétrica, Fernando tocou o nó central da gargantilha negra invisível em seu pescoço. Em vez de forçar uma quebra violenta que asfixiaria a jovem, ele executou um comando limpo de edição de atributos:
> [ROOT CONSOLE: MODIFICAÇÃO DE REGISTRO DE SELO // NÍVEL SUPERUSER]
> [PARÂMETRO: RESISTÊNCIA DE TENSÃO REDUZIDA DE 10.000 PARA 120]
> [STATUS: PERMISSÃO CONCEDIDA PARA EMISSÃO DE FREQUÊNCIA VOCAL LEVE]
A gargantilha negra afrouxou-se como uma fita de seda desamarrada. Sofia levou as duas mãos ao pescoço, sentindo o ar circular livremente pela primeira vez em quase meia década.
Ela abriu a boca. Seus lábios tremeram. E então, um som escapou de sua garganta — um sussurro rouco, frágil, mas humano e perfeito:
— O... obrigado.
Uma lágrima solitária escorreu pela bochecha da restauradora de livros. Ela olhou para Fernando com uma gratidão que ia além de qualquer contrato comercial.
— Minhas runas... — sussurrou ela, com a voz recuperando a cadência da vida. — Minhas runas estão à sua disposição, Administrador.
— Guarde as ferramentas, Sofia — disse Fernando com um sorriso cúmplice. — Nós temos uma guilda inteira para reescrever.