Capítulo 22 de 94
CAPÍTULO 22 — O CANHÃO DE VIDRO
O endereço rabiscado por Bruno em um canhoto de nota fiscal levou Fernando a um imenso pátio de desmanche de caminhões no limite industrial entre Santo André e a Zona Sul paulistana.
O calor dentro do galpão de telhas de zinco era sufocante. O ar cheirava a óleo queimado, borracha derretida e estática de ozônio. Antes mesmo de cruzar a carcaça de uma carreta enferrujada, Fernando sentiu as lentes dos óculos de cristal vibrarem com um alerta de temperatura crítica:
> [ALERTA DE SISTEMA: RADIAÇÃO TÉRMICA ANÔMALA DETECTADA]
> [FONTE DE CALOR: 680°C EM RAIO CURTO // TENDÊNCIA DE ESCALADA]
> [ASSINATURA: NÚCLEO INSTÁVEL DE PIROMANCIA // GRAU: EXPLOSIVO]
No centro do galpão, cercado por sucatas retorcidas que fumegavam em brasa viva, um jovem magro de não mais que vinte e três anos estava ajoelhado sobre uma chapa de aço maciço. Vestia uma regata preta chamuscada e luvas de soldador com os punhos queimados até o couro cru. Seus braços tremiam com espasmos involuntários, e labaredas de um carmesim violento irrompiam de suas palmas sem que ele pudesse conter.
— Afasta! — berrou o rapaz sem olhar para trás, a voz rouca de quem respirava fumaça tóxica há horas. — Não chega perto ou essa merda vai explodir e arrancar as telhas inteiras deste inferno!
Fernando parou a cinco passos de distância. O bafo quente atingiu seu rosto como uma fornalha aberta, mas ele manteve a postura calma do avaliador que se recusa a entrar em pânico diante de um lote defeituoso.
— Você é o Raul — disse Fernando, com a voz firme cortando o crepitar das chamas. — O Bruno me falou de você.
O rapaz virou o rosto molhado de suor. Seus olhos castanhos brilhavam com uma névoa escarlate febril, e os dentes estavam cerrados com tanta força que um filete de sangue escorria de sua gengiva.
— O Bruno é um imbecil se acha que alguém pode consertar isso aqui! — Raul tentou cerrar os punhos, mas uma labareda espontânea subiu em espiral, derretendo um cabo de aço que sustentava um bloco de motor acima de suas cabeças. — O Conselho me chamou de 'Canhão de Vidro'. Disseram que meu canal de fogo é largo demais para a estrutura dos meus meridianos. Toda vez que tento canalizar um feitiço de Rank B, meu núcleo ferve como água em chaleira furada. Eles me jogaram aqui para virar tocha humana!
Fernando deu mais dois passos à frente, ignorando o calor que começava a chamuscar as mangas de sua camisa social.
— Eles te chamaram de vidro porque queriam te usar como dinamite descartável em dungeons profundas — disse Fernando, ativando o Root em nível cirúrgico. — O seu problema não é excesso de fogo, Raul. É uma válvula de alívio mal calibrada no seu barramento vital.
> [ROOT CONSOLE: CONEXÃO VITAL ESTABELECIDA // ALVO: RAUL M.]
> [INSPEÇÃO DE BARRAMENTO: ESTRANGULAMENTO NO MERIDIANO SUBESCAPULAR]
> [AÇÃO: REDIRECIONAR FLUXO TÉRMICO PARA TERRA BIOLÓGICA]
> [BYPASS EXECUTADO COM SUCESSO]
Fernando avançou e pousou a mão direita nua diretamente sobre o ombro fumegante de Raul. O jovem arregalou os olhos em terror, esperando ver a carne do recém-chegado queimar até os ossos. Mas o que se seguiu foi uma onda de frescor límpido e dourado que percorreu seus braços como água de nascente.
O fogo carmesim retrocedeu num chiado abafado. As chamas apagaram-se instantaneamente, restando apenas um vapor fino e inofensivo que subiu das luvas de solda.
Raul desabou para a frente, apoiando as palmas no chão de terra batida, respirando com um alívio tão profundo que parecia estar emergindo de um afogamento de meses.
— Como... o que você fez? — gaguejou o rapaz, olhando para as próprias mãos, que não tremiam mais.
— Eu te dei uma saída de emergência — respondeu Fernando, estendendo a mão para ajudá-lo a se levantar. — O Conselho queria que você queimasse sozinho. Eu preciso de alguém com coragem para controlar o fogo ao lado de quem não vai te descartar.
Raul olhou para a mão estendida de Fernando, engoliu em seco e a apertou com firmeza.
— Se você me ensinar a não virar cinzas... eu vou com você até o fim do mundo.