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CAPÍTULO 21 — DONA MARGARIDA

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Capítulo 21 de 94

CAPÍTULO 21 — DONA MARGARIDA


O quintal nos fundos da casa de Margarida era um espaço de terra batida cercado por um muro alto de blocos — um palco improvisado para o que estava prestes a acontecer.

Margarida vestiu a armadura em silêncio. Peça por peça, como um ritual. Ombreiras, peitoral, grevas, manopla. O metal rangeu, reclamou dos anos de inatividade, mas se ajustou ao corpo dela como se nunca tivesse saído.

— Faz tempo — ela murmurou, fechando o último ajuste.

Fernando ativou o Root e a analisou.

NOME: MARGARIDA O. / IDADE: 58 / CLASSIFICAÇÃO: EX-CAÇADORA S-RANK (ATUALMENTE INATIVA)] [HP: 3.800/3.800] [MANA: 420/420] [NÚCLEO: ADORMECIDO — 18% DE CAPACIDADE MÁXIMA] [FORÇA: 40 | RESISTÊNCIA: 55 | AGILIDADE: 22

— Seu núcleo está adormecido — Fernando disse. — A capacidade máxima é de 18% do que já foi.

— Sei. — Margarida ajustou a manopla direita. — Os médicos da Arcadium disseram que era "atrofia natural por idade". Que meu corpo não aguentava mais o fluxo de mana de uma S-rank.

— Eles mentiram. — Fernando se aproximou. — Seu núcleo não atrofiou. Foi bloqueado. Alguém inseriu um selo de mana no seu sistema vital.

O rosto de Margarida empalideceu. — Um selo?

— Um bloqueio energético intencional. Provavelmente colocado na época em que a senhora recusou a missão. A Arcadium não te aposentou — ela te desligou.

O silêncio de Margarida era mais pesado que a armadura.

— Você consegue reverter? — ela perguntou, a voz rouca.

— Consigo. — Fernando estendeu a mão. — Mas preciso tocar seu núcleo. E vai doer.

— Dói menos que carregar essa incompetência por dez anos. — Ela abriu o peitoral, expondo as costelas. — Vai.

Fernando colocou a mão sobre o peito dela, exatamente onde o núcleo pulsava fraco.

CONTATO ESTABELECIDO. NÚCLEO IDENTIFICADO: BLOQUEADO POR SELO DE MANA GRAU III. DESEJA EDITAR?

— Remover selo.

CUSTO: 180 MANA. MANA DISPONÍVEL: 23 + 95 (DRENAGEM AMBIENTAL) = 118. INSUFICIENTE.

— Droga. — Fernando rangeu os dentes. — Não tenho mana suficiente sozinho.

— Então usa a minha. — Margarida segurou o pulso dele. — Drena do meu núcleo.

— Seu núcleo está bloqueado. Se eu drenar, a senhora pode...

— Pode o quê? Morrer? Já tô morta há dez anos. Vai.

Fernando respirou fundo e ativou a drenagem direta.

A mana de Margarida era antiga, densa — como vinho envelhecido em barris de carvalho. Ela entrou no sistema de Fernando em ondas, quente e pesada, quase solidificando nas veias dele.

MANA OBTIDA: 120. MANA TOTAL: 238. CUSTO: 180. CONFIRMAR REMOÇÃO DE SELO?

— Confirmar.

O mundo explodiu em luz dourada.

Fernando sentiu o selo se desfazer sob seus dedos — era como quebrar uma corrente invisível, elo por elo. Cada estalo ecoava no ar, e Margarida grunhia, as mãos cravadas na bancada de cimento.

— Mais um — Fernando murmurou, suor escorrendo pela testa. — Mais um...

O último elo se rompeu.

Margarida arquejou. Literalmente arquejou — seu corpo se curvou para trás, a mana reprimida explodindo para fora em ondas concêntricas que sacudiram as folhas das árvores e fizeram os cães da vizinhança latirem.

SELO REMOVIDO. NÚCLEO RESTAURADO. CAPACIDADE ATUAL: 89%.

Ela ficou imóvel por um momento, o peito arfando. Depois, lentamente, ela ergueu as mãos diante do rosto.

Fios de mana azul dançavam entre seus dedos — finos, vivos, responsivos.

— Eu... — A voz dela quebrou. — Eu não sentia isso há dez anos.

— A senhora está de volta. — Fernando cambaleou para trás, exausto. — Mais ou menos. Ainda precisa de treino para recuperar o condicionamento total.

Margarida fechou as mãos. A mana se dissipou.

— O que você quer em troca?

— O que eu já disse. — Fernando apoiou as mãos nos joelhos, recuperando o fôlego. — Quero que a senhora lute ao meu lado. Não para sempre. Só até a Malha ser destruída.

— E depois?

— Depois a senhora decide.

Margarida o estudou por um longo momento. Depois, pela primeira vez desde que Fernando chegou, ela sorriu. Não um sorriso forçado de cortesia — um sorriso genuíno, que fazia os olhos dela brilharem.

— Fazia tempo que alguém não me dava um motivo pra levantar da cama. — Ela estendeu a mão. — Tô dentro, avaliador.

Fernando apertou a mão dela. Aperto firme, seco, de quem não precisava provar nada.

— Primeiro passo dado. — Ele guardou os óculos. — Agora vamos buscar o resto do esquadrão.