Pular para o conteúdo principal

CAPÍTULO 20 — O PREÇO DA RECUSA

⏱️ ~7 min
🌿 Modo Zen ativo· Toque para ver controles
👈 Deslize p/ AnteriorDeslize p/ Próximo 👉

Capítulo 20 de 94

CAPÍTULO 20 — O PREÇO DA RECUSA


— Ele sabe onde moramos.

A frase de Luan quebrou o silêncio que se instalou depois que Augusto partiu. O garoto estava pálido, as mãos tremendo sobre o laptop.

— Sabe onde eu trabalho. Onde minha prima mora. O que a gente comeu no jantar de ontem. — Luan levantou os olhos. — A gente não tem pra onde fugir.

— Não vamos fugir. — Fernando estava encostado na bancada de Hiroshi, os braços cruzados. — Vamos nos preparar.

— Preparar como? — Bruno jogou a espada sobre a mesa com um baque metálico. — Somos três. Ele tem uma guilda inteira. E um exército de caçadores modificados.

— Três. — Hiroshi limpava as mãos com um pano, a expressão pensativa. — Mais um velho que ainda sabe manejar um martelo de guerra.

Fernando balançou a cabeça. — Mestre, o senhor não precisa...

— Cale a boca, avaliador. — Hiroshi apontou o martelo para ele. — Faz vinte anos que eu me escondo. Vinte anos carregando culpa pelo que o Augusto fez. Se eu vou morrer, que seja lutando.

Fernando olhou para os três. Bruno, o guerreiro de núcleo rachado que sobreviveu ao impossível. Luan, o garoto que despertou o Root depois de morrer. Hiroshi, o ferreiro banido que carregou o peso de um crime que não cometeu.

Marginalizados. Todos eles.

Como ele.

— Luan. — Fernando se virou para o garoto. — Você disse que conhece uma tanker aposentada. Onde ela mora?

— Zona Leste. Periferia. Uns 40 minutos daqui.

— Bruno. Você tem contatos no submundo. Precisa de alguém com poder de fogo à distância. Um mago, um artilheiro, alguém que faça estrago de longe.

Bruno franziu a testa. — Conheço uma pesquisadora que foi demitida da USP por estudar "magia aplicada não convencional". Ela vive de consertar equipamentos e vender cristal adulterado.

— Amanhã a gente visita ela. — Fernando virou para Hiroshi. — Mestre, o senhor consegue nos dar suporte técnico? Arrumar os óculos, preparar equipamento?

— Consigo. — Hiroshi já estava mexendo em ferramentas. — Mas vou precisar de materiais. Coisas que não se compra em loja comum.

— Pede pro Bruno. Ele conhece o mercado negro.

— E você? — Bruno perguntou. — O que vai fazer?

Fernando colocou os óculos. As lentes trincadas ainda funcionavam — por enquanto.

— Vou visitar a tanker amanhã cedo. Depois a maga. Depois... — ele hesitou. — Tem um padre que ouvi falar. No Extremo Sul da cidade. Dizem que ele cura com as mãos.

— Um healer. — Luan assentiu. — Você quer montar um esquadrão completo.

— Quero montar uma família. — Fernando encarou cada um deles. — Pessoas em quem a gente confia. Que não vão nos entregar. Que lutam por algo além de dinheiro.

Bruno sorriu — um sorriso duro, mas genuíno.

— Então vamos nessa.

A manhã seguinte chegou fria e cinzenta. Fernando saiu da oficina de Hiroshi antes do sol nascer, os óculos no bolso, o caderno de Rafael na mochila. Luan tinha mandado as coordenadas por mensagem: um endereço no Jardim Helena, Zona Leste, a última parada do metrô antes da divisa com Guarulhos.

Eram 7h quando ele chegou.

A casa era simples — uma construção de dois cômodos com telhas de amianto e uma pintura desbotada que já foi azul. Na frente, um jardim de ervas crescia desordenado em vasos de cerâmica rachados. Manjericão, alecrim, arruda — plantas que Fernando associava a benzedeiras e simpatias de avó.

Ele bateu na porta de ferro.

Ninguém respondeu.

Bateu de novo.

— Tô ouvindo — uma voz feminina veio de dentro, rouca de sono ou de café recém-passado. — Quem é?

— Meu nome é Fernando. Trabalho na Arcadium. — Ele hesitou. — Ou trabalhava. Uma amiga em comum me deu seu contato.

— Amiga em comum não existe. Sou aposentada há dez anos.

— Luan. O Luan me mandou.

Silêncio. Depois, o som de ferrolhos sendo destravados.

A porta se abriu.

Dona Margarida não era o que Fernando esperava.

Ele esperava uma senhora frágil, encurvada pelos anos, com cabelos brancos e mãos trêmulas. A mulher na porta tinha pouco mais de 50 anos — cabelos grisalhos presos em um coque frouxo, ombros firmes, olhos escuros que examinavam Fernando como se ele fosse um inseto suspeito.

— Você não parece caçador — ela disse, os braços cruzados.

— Não sou. Sou avaliador de logística.

— Avaliador? — Ela soltou uma risada curta, sem humor. — E o que um avaliador quer com uma aposentada?

— Quer saber se a senhora ainda lembra como se luta.

A expressão de Margarida mudou. Não era mais desconfiança — era algo mais afiado.

— Sabe quantos anos eu tenho?

— 58. Pelo menos é o que está no seu registro na guilda.

— E sabe por que eu parei de caçar?

— Disseram que era "aposentadoria por idade". — Fernando sustentou o olhar dela. — Mas eu vi seu histórico. A senhora não parou porque envelheceu. Parou porque recusou uma missão que considerou antiética. E a guilda te congelou.

Margarida não respondeu imediatamente. Ela abriu a porta mais larga, num gesto que podia ser convite ou desafio.

— Entra. Vou passar café.

A cozinha era pequena, mas organizada. Panelas de ferro penduradas na parede. Uma imagem de São Jorge sobre o fogão. Margarida serviu café em canecas de ágata sem perguntar se Fernando queria açúcar.

— O Luan falou de você — ela disse, sentando-se à mesa. — Garoto esperto. Apareceu aqui há duas semanas, perguntando se eu conhecia alguém chamado Rafael. Disse que você era parecido com ele.

— Rafael era um Codificador. Como eu.

— Codificador? — Margarida franziu a testa. — Isso não é um termo que se ouve todo dia.

Fernando ativou o Root. A interface dourada apareceu, e ele estendeu a mão sobre a mesa.

— A senhora já ouviu falar de pessoas que podem editar a malha vital?

Margarida arregalou os olhos. Não de medo — de reconhecimento.

— Conheci um. Há uns 20 anos. Garoto magro, cabelo comprido, olhos assustados. Apareceu na minha base pedindo ajuda. Disse que estava sendo perseguido.

— Rafael.

— Se esse era o nome dele. — Margarida apertou a caneca. — Eu ajudei ele a se esconder por três semanas. Até que o homem de preto apareceu. Levou ele. Nunca mais vi.

Fernando tirou o caderno de Rafael da mochila e colocou sobre a mesa.

— Ele morreu. Assassinado pela Arcadium. E o homem de preto que levou ele está prestes a concluir o projeto que ele começou.

Margarida folheou o caderno em silêncio. Sua expressão se tornava mais sombria a cada página.

— O que você quer de mim, Fernando?

— Quero que a senhora lute. — Ele segurou o olhar dela. — Não por dinheiro. Não por status. Porque a Arcadium está matando pessoas para construir uma arma que pode destruir a cidade. E eu preciso de pessoas que conhecem o sistema por dentro.

— Estou aposentada.

— O Root pode despertar seu núcleo adormecido. A senhora não precisa ser a tanker que foi. Pode ser melhor.

Margarida ficou em silêncio por um longo minuto. Depois, lentamente, ela se levantou, foi até um armário, e tirou de dentro uma caixa de madeira enferrujada.

Abriu.

Dentro, uma armadura. Não era moderna — era um modelo antigo, de uma época em que caçadores ainda usavam placas de aço encantado em vez de polímeros sintéticos. Estava enferrujada em alguns pontos, mas Fernando sentiu a mana que emanava dela.

— Essa era minha armadura quando eu era S-rank. — Margarida passou a mão sobre o peitoral. — Faz dez anos que não visto.

— A senhora vai vestir de novo?

Margarida fechou a caixa.

— Primeiro me mostra o que esse tal Root é capaz de fazer. Depois eu decido.

Fernando assentiu.

— Combinado.