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CAPÍTULO 19 — O CONFRONTO

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Capítulo 19 de 94

CAPÍTULO 19 — O CONFRONTO


A noite na porta da oficina de Hiroshi era silenciosa demais.

Não o silêncio normal de uma rua do Brás após a meia-noite — quando ainda se ouve o chiado de televisões de fundo, o latido ocasional de cães, o motor distante de um caminhão de entrega. Era um silêncio absoluto, como se o mundo tivesse prendido a respiração.

O Homem de Preto estava parado sob a luz amarela do poste. Seu terno estava impecável, sem uma dobra fora do lugar, como se ele tivesse saído de uma reunião de diretoria em vez de uma perseguição noturna. Suas mãos estavam vazias. Seu rosto, uma máscara de cortesia profissional.

— Boa noite, Fernando. — A voz era calma, medida. A mesma do interrogatório. — Nós precisamos conversar.

Bruno puxou a espada antes que Fernando pudesse responder. Luan recuou para trás da bancada, os dedos já brilhando com o Root. Hiroshi, na porta dos fundos, empunhava um martelo de forja como se fosse uma arma de guerra.

— Calma, pessoal. — Fernando levantou a mão, parando o grupo. — Se ele quisesse nos matar, não teria batido na porta.

— Correto. — O Homem de Preto inclinou a cabeça, um gesto quase cortês. — Se eu quisesse vocês mortos, vocês já estariam. Tive três oportunidades nas últimas duas semanas. No arquivo morto da guilda. Na dungeon que vocês limparam na Zona Norte. E na estação de metrô que vocês usaram como ponto de encontro ontem.

O silêncio que se seguiu foi diferente. Não era mais o silêncio de expectativa — era o silêncio de quem descobre que está sendo observado há mais tempo do que imaginava.

— Sabe de tudo — Fernando disse.

— Sei de tudo. — O Homem de Preto deu um passo à frente, e ninguém o impediu. — Sei que você despertou o Root no Dungeon Break do Shopping Dom Pedro. Sei que curou o guerreiro Bruno com edição vital. Sei que encontrou o caderno do Rafael e está em contato com o garoto Luan. Sei que Hiroshi construiu os óculos para você, e que você usou o Root para purificar um Núcleo Corrompido. — Ele parou a dois metros de distância. — Sei até que você está planejando recrutar caçadores marginalizados para formar um esquadrão clandestino.

Fernando sentiu o estômago apertar. Cada palavra era um prego no caixão da ilusão de que ele estava operando nas sombras.

— Se sabe tudo, por que não me matou?

— Porque você é útil. — O Homem de Preto tirou algo do bolso interno do paletó — um tablet fino, que ele ligou e girou para mostrar a tela. — Eu quero que você veja isso.

Na tela, um diagrama complexo. Fernando reconheceu imediatamente: era o projeto da Malha, igual ao que Luan havia mostrado no bar. Mas haviam modificações — adaptações que tornavam o design mais agressivo, menos estável.

— Isso é a sua versão — Fernando disse.

— Nossa versão. — O Homem de Preto guardou o tablet. — O Rafael criou o projeto original de uma rede neural de Codificadores. Uma Malha Vital que conectaría todos os portadores do Root em uma única consciência distribuída. O potencial era revolucionário. Mas Rafael era idealista demais. Queria usar a Malha para "curar o mundo". Nós temos objetivos mais... práticos.

— Controlar o mercado de dungeons. Manipular classificações de fenda. Explorar a mana da cidade para enriquecer a Arcadium.

— Isso e mais. — O Homem de Preto não negou. — Com a Malha, podemos estabilizar as fendas. Prevenir Dungeon Breaks. Distribuir mana para áreas de escassez. O problema é que a Malha precisa de um Codificador no centro — um administrador principal para processar os dados vitais.

— E esse administrador sou eu.

— Ou o garoto Luan. Ou qualquer outro Codificador que desperte. — O Homem de Preto inclinou a cabeça. — A questão não é quem. É quando. A Malha está quase pronta. Os núcleos de mana que plantamos pela cidade já carregaram 73% da capacidade necessária. Em duas semanas, ela estará operacional. Com ou sem você.

— Então por que precisa de mim?

— Porque sem um Codificador no centro, a Malha é apenas um reservatório de mana caro. Com um Codificador, ela se torna o sistema nervoso da cidade. — O Homem de Preto estendeu a mão. — Trabalhe conosco, Fernando. Complete o que o Rafael não conseguiu. E em troca, seus amigos ficam vivos. Hiroshi volta a trabalhar legalmente. Bruno recebe tratamento para o núcleo. Luan pode ficar com a prima dele. Até a Margarida pode voltar a caçar sem ser perseguida.

Fernando olhou para a mão estendida. A pele era pálida, quase translúcida sob a luz do poste. E ele percebeu algo que não havia notado antes: não havia veias visíveis naquela mão.

— O que você é? — Fernando perguntou, a voz baixa. — Rafael escreveu no caderno que sua assinatura de mana é irregular. Que você parece ter duas presenças em um corpo.

O sorriso do Homem de Preto mudou. Não era mais cortês — era algo mais antigo. Mais cansado.

— Eu fui a primeira experiência. — Ele abaixou a mão lentamente. — Antes do Rafael, antes de você, antes de qualquer Codificador natural, houve o Projeto Root Original. A tentativa de criar um Codificador artificial. Transferiram o núcleo de um Codificador moribundo para o corpo de um voluntário. Eu era o voluntário.

— Isso é... — Luan sussurrou. — Monstruoso.

— É sobrevivência. — O Homem de Preto — Augusto — olhou para suas próprias mãos. "Eu tenho duas consciências dentro de mim. A minha e a do Codificador que morreu para me criar. Nós aprendemos a conviver. Mas isso me custou algo que não recuperei."

— A humanidade.

— A capacidade de usar o Root. — Augusto ergueu os olhos. — Eu posso sentir a Malha Vital. Posso vê-la. Mas não posso editá-la. Meu corpo rejeita o comando. Por isso preciso de você.

O silêncio pairou. Hiroshi, que estava imóvel até então, deu um passo à frente.

— Você era meu melhor aluno, Augusto. — A voz do velho ferreiro estava carregada de décadas de mágoa. — Eu confiava em você como um filho. E você destruiu tudo.

— Eu não tive escolha, Mestre. — Pela primeira vez, a voz de Augusto vacilou. — Eles me ofereceram uma cura para o que estava matando minha irmã. Eu aceitei. Descobri depois que a cura era uma mentira. Mas já era tarde demais.

— Sua irmã morreu?

— Não. — Augusto fechou os olhos. — Ela foi a primeira hospedeira da Malha. O núcleo central. Ela está viva, mas não acorda há 18 anos. A Malha é a única coisa que mantém o coração dela batendo.

O silêncio que se seguiu foi o mais pesado de todos.

— Se eu ativar a Malha com um Codificador — Augusto continuou — a energia vital pode ser suficiente para despertar ela. É por isso que estou fazendo isso. Não por poder. Não pela Arcadium. Por ela.

Fernando olhou para Bruno. Para Luan. Para Hiroshi. Três pares de olhos esperando sua decisão.

— Eu entendo — Fernando disse finalmente. — Mas não posso aceitar.

Augusto não pareceu surpreso. Apenas cansado.

— Posso saber por quê?

— Porque você está matando pessoas para construir sua salvação. Os avaliadores que trabalharam nas fendas adulteradas. Os caçadores que morreram no Dungeon Break. A prima do Luan. O Rafael. Você está sacrificando dezenas para salvar uma. — Fernando balançou a cabeça. — Isso não é amor. É egoísmo.

Augusto ficou em silêncio por um longo momento. Depois, lentamente, ele ajustou o paletó.

— Você tem 48 horas, Fernando. Aceite o acordo — ele virou as costas — ou eu venho buscar você. E dessa vez, não vou oferecer um acordo.

Ele caminhou pela rua escura, seus passos ecoando no asfalto molhado. Ao longe, os sons da cidade começaram a voltar — motores, vozes, vida.

A respiração estava suspensa foi liberada.

— Isso foi... — Bruno começou.

— Só o começo. — Fernando fechou a porta da oficina. — Precisamos de reforços. E rápido.