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CAPÍTULO 1 — O AVALIADOR

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Capítulo 1 de 94

CAPÍTULO 1 — O AVALIADOR


O ar-condicionado do 23º andar funcionava numa temperatura de freezer, mas não era o frio que fazia Fernando apertar os olhos atrás da tela do monitor. Era a planilha.

"Lote 47-B. Cristal de Mana, Azul, Grau III. Pureza: 67,3%. Valor estimado: R$ 4.200,00."

Ele arrastou o mouse, preencheu o campo de aprovação e passou para a próxima linha. Lote 47-C. Cristal de Mana, Azul, Grau III. Pureza: 66,8%...

— Fernando. Acorda aí.

A voz veio das costas, acompanhada de uma batida impaciente na divisória de vidro. Fernando não precisou virar para saber de quem era. O cheiro de couro novo e suor barato denunciava o gerente de operações, Sr. Alves, um homem que usava o cargo como extensão da própria mediocridade.

— A equipe de limpeza do subsolo está pronta. Vai precisar descer com eles.

Fernando finalmente virou a cadeira. — Descer? Eu?

— Você é o avaliador de plantão. Alguém precisa certificar a extração, catalogar as espécies, liberar o pagamento. — Alves deu de ombros, já virando as costas. — É Rank F, não precisa nem sujar a bota. Vai, assina a papelada e desce.

O monitor de Fernando piscou. Uma nova mensagem no sistema interno:

MISSÃO: CATALOGAÇÃO PÓS-LIMPEZA — SHOPPING DOM PEDRO, SUBSOLO NÍVEL 3. RANK F: RESPONSÁVEL: FERNANDO A. / ESCOLTA: BRUNO S. — STATUS: PENDENTE

Fernando leu duas vezes. Escolta. Desde quando missão de catalogação vinha com escolta?

Ele guardou o crachá no bolso da camisa social e pegou o tablet de avaliação. O corredor da Guilda Arcadium era um daqueles lugares que misturavam o cheiro de café de escritório com o zumbido elétrico de mana residual. Nos elevadores, caçadores equipados com armaduras leves e armas encantadas passavam por ele como se fosse parte do mobiliário.

— Sai da frente, avaliador.

Um empurrão leve no ombro. Fernando não reagiu. Aprendera há anos que reagir só piorava. Ele era o cara que segurava o tablet enquanto os heróis brilhavam. Fazia parte do contrato.

Mas enquanto o elevador descia para o térreo, ele não conseguia tirar os olhos da mensagem no sistema.

Escolta. Por que uma missão Rank F precisa de escolta?

O Shopping Dom Pedro estava interditado há três semanas. Uma fenda de Rank F havia se aberto no estacionamento do subsolo Nível 3 — algo considerado quase cômico pelos padrões da guilda. Monstros de Rank F eram basicamente pragas urbanas: ratos com cristais, fungos luminescentes, slimes que derretiam concreto devagar. Nada que uma equipe de limpeza mediana não resolvesse em duas horas.

A equipe de limpeza já estava reunida na entrada do estacionamento quando Fernando chegou. Seis homens e mulheres com equipamentos de extração e contenção. Todos com o uniforme azul-marinho da Arcadium. Todos pragmáticos, profissionais, prontos para terminar o serviço e ir embora.

E, encostado em uma parede descascada, separado do grupo, estava a escolta.

Bruno "Brunão" — como era conhecido nos corredores — tinha porte de ex-militar. Ombros largos, postura ereta, uma cicatriz fina que cortava a sobrancelha esquerda. Mas seus olhos tinham um brilho amarelado que denunciava o problema. Vazamento Crônico de Mana. A doença ocupacional dos caçadores que forçavam demais o núcleo. Sua pele tinha um tom pálido, quase doentio, e Fernando notou que ele mantinha a mão direita ligeiramente fechada, como se segurasse algo invisível. Um tremor fino nos dedos.

— Você é o avaliador? — Bruno perguntou. A voz era mais cansada do que Fernando esperava.

— Fernando. Logística.

— Bruno. Escolta. — Ele não estendeu a mão. — Vamos resolver isso rápido. Desço, você cataloga, eu te trago de volta.

— Por que precisa de escolta? É Rank F.

Bruno olhou para o chão molhado do estacionamento. — O relatório de varreura pré-limpeza acusou algumas anomalias magnéticas. Nada grave. Mas a guilda não quer risco. Melhor prevenir.

Anomalias magnéticas. Fernando guardou a informação. Não era incomum — dungeons jovens tinham instabilidade de mana. Mas algo no tom de Bruno soava estranho. Como se ele estivesse repetindo uma frase que não acreditava.

— Vamos. — Bruno virou-se e começou a descer a rampa.

Fernando apertou o tablet contra o peito e seguiu.

O subsolo Nível 2 ainda tinha carros abandonados. Alguns com as portas abertas, outros cobertos por uma camada fina de poeira branca — resíduo de mana solidificada. As luzes de emergência piscavam em intervalos regulares, criando sombras que se moviam sem vento.

— Já limpou muitas dungeons? — Fernando perguntou, apenas para quebrar o silêncio.

— Já. — Bruno não olhou para trás. — Mas não como caçador de elite. Sempre como escolta. Suporte. Carregador de equipamento.

— Por causa do vazamento?

Bruno parou. Virou-se lentamente. Seus olhos estreitaram.

— Você sabe o que é ter um núcleo rachado, avaliador? Sabe o que é sentir sua própria energia escorrendo pelos dedos enquanto todo mundo te trata como uma bomba relógio?

Fernando sustentou o olhar. — Não. Mas sei o que é ser invisível.

Os dois se encararam por um momento. Depois Bruno bufou, um meio sorriso sem humor, e continuou descendo.

— Você é diferente dos outros avaliadores. Eles só olham para números.

— Números contam histórias.

— E o que os meus números dizem?

Fernando puxou o tablet. Escaneou o código de Bruno rapidamente — uma função básica do equipamento, acessível a qualquer funcionário.

NOME: BRUNO S. / RANK: D (ANTERIOR: C) / NÚCLEO: FISSURADO — VAZAMENTO DE 23% AO DIA / CONDUTIVIDADE: 41% DA MÉDIA

— Dizem que você já foi melhor. E que a guilda te empurra para missões de baixo risco porque não confia que você aguente algo maior.

Bruno não respondeu. Mas seus ombros enrijeceram.

Eles chegaram ao Nível 3. O ar mudou.

Não era mais o cheiro de concreto molhado e poeira. Era algo metálico, elétrico, como o cheiro que fica no ar depois de um raio. A fenda estava no centro do estacionamento, uma rachadura vertical de uns três metros de altura, pulsando com uma luz azul pálida. Ao redor, marcas de garras e queimaduras — o trabalho da equipe de limpeza.

— Parece tranquilo — Fernando murmurou, mais para si mesmo.

— Parece. — Bruno não pareceu convencido. Ele caminhou até a borda da fenda, examinando as bordas irregulares. Passou a mão sobre a superfície — e congelou.

— O que foi?

— A cor. — Bruno apontou para a fenda. — Fendas Rank F são azul-claro. Quase brancas. Essa aqui... tem um tom diferente.

Fernando se aproximou. Olhou para a superfície pulsante do portal. Bruno estava certo. No fundo da luz azul, havia fios finos de uma cor escura, violácea, como veias correndo sob a pele.

— Pode ser resíduo da limpeza — Fernando disse, mas sua voz não soou convincente nem para ele mesmo.

Bruno balançou a cabeça. — Não. Isso não é resíduo.

Ele tirou o rádio do cinto e apertou o botão de transmissão.

— Base, aqui é Bruno. Preciso que verifiquem a classificação da fenda no Subsolo 3. Tem uma...

O rádio chiou. Depois, estática pura.

— Base? — Bruno apertou o botão de novo. — Base, responda.

Nada.

O ar ficou mais pesado. A luz violácea dentro da fenda começou a pulsar mais rápido — não mais como veias, mas como um coração.

— Fernando. — A voz de Bruno estava baixa, controlada, profissional. — Afasta-se da fenda. Agora.

Fernando obedeceu, mas seus olhos não saíram do portal. A fenda estava crescendo. As bordas se estilhaçavam como vidro, a luz violácea se espalhando pelo ar em filamentos finos.

Lá dentro, nas profundezas da fenda, algo mexeu.

Não era um monstro Rank F.

Era muito, muito maior.

O primeiro grito veio da retaguarda. Depois o segundo. A equipe de limpeza estava sendo dizimada em segundos.

Bruno puxou a espada das costas e colocou-se na frente de Fernando.

— Corre, avaliador. Corre e não olha para trás.

Mas Fernando não conseguia se mexer. Porque no meio do caos, enquanto o portal se rompia e monstros de classe superior emergiam das entranhas da fenda, uma notificação apareceu no canto do seu campo de visão.

Ela não veio do tablet. Não veio do sistema da guilda.

Veio de dentro dele.

SINAL DE ORIGEM DESCONHECIDA DETECTADO. DESEJA ABRIR?

Fernando piscou. A mensagem sumiu. A tela do tablet rachou com o impacto de algo que passou zunindo.

E o mundo desabou.