Capítulo 17 de 94
CAPÍTULO 17 — A REDE SE EXPANDE
O contato veio três dias depois.
Fernando estava na sala de arquivos da Arcadium, vasculhando relatórios de extração antigos, quando o sinal prateado pulsou com uma intensidade que nunca havia atingido antes. Não era mais um fio distante — era uma presença, como alguém batendo em uma porta do outro lado da cidade.
O SINAL PRATEADO ESTÁ TRANSMITINDO UMA MENSAGEM DIRETA. DESEJA RECEBER?
— Sim.
O mundo ao redor de Fernando desapareceu.
Ele não estava mais no arquivo da guilda. Estava em um lugar cinza, sem paredes, sem chão — apenas névoa e uma luz prateada que vinha de todos os lados.
E na frente dele, um garoto.
Devia ter 19 anos, no máximo. Magro, cabelo preto desgrenhado, olheiras profundas que denunciavam noites sem dormir. Vestia uma camiseta surrada de uma banda que Fernando não conhecia e carregava uma mochila nas costas.
— Você é o Fernando? — a voz do garoto era trêmula, mas tinha uma urgência que não combinava com a aparência cansada.
— Quem é você?
— Meu nome é Luan. Eu trabalho na Abyss Corp. Sou office boy. E... — ele estendeu a mão. Ela brilhava com o mesmo tom prateado do sinal. — Eu sou como você.
Fernando não apertou a mão imediatamente. Examinou o garoto com o Root.
NOME: LUAN M. / IDADE: 19 / CLASSIFICAÇÃO: NÃO-CAÇADOR (OFFICE BOY)] [MANA PESSOAL: 18] [ACESSO: ROOT — ATIVO] [NÍVEL DE SINAL: 34% — CONEXÃO INSTÁVEL
— Outro Codificador — Fernando murmurou.
— O terceiro. — Luan abaixou a mão, sem ofender. — O Rafael foi o primeiro. Você é o segundo. Eu sou o terceiro. Pelo menos, os únicos que ainda estão vivos.
— Como você me encontrou?
— O Rafael deixou um rastro. Antes de morrer, ele configurou o sistema para emitir um sinal de boas-vindas para qualquer Codificador que despertasse dentro de um raio de 200 quilômetros. Eu recebi o sinal há dois meses, mas estava com medo de responder. — Luan olhou para os próprios pés. — Até ontem.
— O que mudou ontem?
Luan ergueu a cabeça. Seus olhos estavam vermelhos.
— Eles pegaram minha prima. Ela não é Codificadora. Não tem nada a ver com isso. Mas eles invadiram a casa dela ontem à noite, reviraram tudo, e a levaram. Deixaram um bilhete.
— Que bilhete?
— "Diga ao Codificador para se apresentar. Ou ela volta em pedaços."
O silêncio no espaço cinza era absoluto.
Fernando sentiu o estômago apertar. Não era apenas sobre ele agora. O homem de preto estava caçando ativamente.
— Você sabe quem são "eles"?
— Pessoas da sua guilda. — Luan apertou os punhos. — Ou pelo menos, pessoas que usam insígnias da Arcadium. Um homem de terno preto liderou a operação.
— O Homem de Preto. — Fernando fechou os olhos. — Ele está queimando os Codificadores um por um.
— Por isso vim falar com você. — Luan deu um passo à frente. — Sozinhos, a gente morre. O Rafael tentou sozinho e morreu. Mas se a gente se unir... se a gente formar uma rede...
— Uma rede de Codificadores.
— A gente não precisa ser caçado. A gente pode se esconder junto. Ou revidar.
Fernando olhou para as próprias mãos. A interface do Root pulsava, dourada e familiar.
— Onde você está agora?
— Num ponto de encontro. Um bar no Brás, perto da oficina do Mestre Hiroshi. Eu sei que você conhece ele.
— Você sabe disso também pelo sinal?
— Não. O Rafael deixou instruções específicas para quem encontrasse o caderno.
Fernando franziu a testa. — Como sabe que eu tenho o caderno?
— Porque você está vivo. — Luan sorriu, mas não havia alegria no sorriso. — E porque o sistema te reconheceu como o herdeiro.
O espaço cinza começou a se desfazer. A conexão estava se rompendo.
— Me encontra no bar amanhã, 22h — Luan disse, a voz já distorcendo. — E traz o caderno do Rafael. Tem coisas nele que eu não consegui decifrar sozinho. Coisas sobre o que eles estão planejando.
— Uma última coisa. — Fernando segurou a imagem de Luan antes que ela desaparecesse. — Como você despertou o Root?
Luan hesitou. A resposta veio baixa, quase inaudível:
— Eu morri. Por três minutos. Parada cardíaca durante um ataque de monstros na dungeon que eu estava catalogando. Quando voltei, o sistema estava lá.
O espaço cinza se desfez. Fernando estava de volta ao arquivo da guilda, sentado diante do terminal, as mãos tremendo.
CONEXÃO ENCERRADA. CUSTO DE MANA: 15 UNIDADES.
Ele não respondeu. Estava processando o que Luan havia dito.
Eu morri. Por três minutos.
Quantos Codificadores precisavam morrer para despertar?