Pular para o conteúdo principal

CAPÍTULO 16 — PRIMEIRA SINCRONIA

⏱️ ~5 min
🌿 Modo Zen ativo· Toque para ver controles
👈 Deslize p/ AnteriorDeslize p/ Próximo 👉

Capítulo 16 de 94

CAPÍTULO 16 — PRIMEIRA SINCRONIA


A dungeon era um antigo teatro abandonado no centro de São Paulo. A fenda havia se aberto no palco principal, transformando o fosso da orquestra em um abismo pulsante de mana roxa. Pelo relatório da guilda, era Rank D. Pela leitura de Fernando, era Rank C com potencial de crescimento.

— Mais uma fenda adulterada — Bruno constatou, ajustando a proteção do ombro. — Quantas mais vão ter?

— Até descobrirmos quem está por trás disso. — Fernando colocou os óculos. As lentes V1.0 estavam trincadas em dois lugares agora, mas ainda funcionavam. — Vamos.

Eles entraram pelo que restava da bilheteria. O carpete vermelho estava podre, as paredes cobertas de mofo e símbolos que Fernando não reconhecia. O ar era pesado, carregado de mana e algo mais — uma presença.

AMBIENTE: DUNGEON ATIVA. SATURAÇÃO DE MANA: 210%. DENSIDADE DE CRIATURAS: 8 — RANK D A C.

— Oito monstros — Fernando avisou. — Distribuídos pelo teatro.

— Eu cuido dos menores. — Bruno puxou a espada. — Você foca nos maiores. E não morre.

— O plano perfeito.

Eles avançaram. O primeiro monstro surgiu das cortinas podres — um Lurker, rank D, com garras longas e pele translúcida. Bruno o abateu com um golpe seco antes que a criatura pudesse completar o ataque.

— Um abatido. Sete restantes.

— Estou vendo mais três vindo da plateia. — Fernando apontou. — Vai.

Bruno saltou para dentro do salão principal, a espada brilhando. Fernando ficou para trás, os dedos já formigando com a mana que começava a acumular.

ALERTA: NÍVEL DE MANA AMBIENTAL EM ELEVAÇÃO. O NÚCLEO DA DUNGEON ESTÁ RESPONDENDO À SUA PRESENÇA.

— Ele sabe que estou aqui?

ELE SENTE O ROOT. PARA CRIATURAS DE MANA, VOCÊ É UMA LUZ NO ESCURO.

— Ótimo. — Fernando avançou. — Então vamos dar a eles algo para ver.

Ele entrou no salão principal no momento em que Bruno enfrentava dois monstros simultaneamente. O guerreiro era bom — mesmo com o núcleo fissurado, seus movimentos eram precisos, econômicos. Mas Fernando via o que Bruno não via: o vazamento de mana aumentando, a energia escapando pelos poros.

Em mais cinco minutos de combate intenso, Bruno entraria em colapso.

— Bruno! — Fernando gritou. — Vai precisar confiar em mim agora!

— Como assim?!

— Vou editar seu vazamento. Redirecionar a mana perdida de volta para os músculos!

— Isso nunca foi testado!

— Nem curar ferimento fatal com as mãos! — Fernando já corria na direção dele. — Confia!

Bruno rangeu os dentes, mas não recuou. Fernando alcançou o guerreiro e colocou a mão em suas costas, bem sobre o núcleo.

CONTATO ESTABELECIDO: BRUNO S. — NÚCLEO FISSURADO. DESEJA EDITAR?

— Não vou editar o núcleo agora. Muito arriscado. — Fernando respirou fundo. — Mas vou rotear a mana vazada de volta para o sistema circulatório dele. Fechar o ciclo.

CUSTO: 60 MANA POR MINUTO. MANA DISPONÍVEL: 23 + 120 (DRENAGEM AMBIENTAL) = 143. SUFICIENTE PARA APROXIMADAMENTE 2 MINUTOS DE CICLO FECHADO.

— Dois minutos. — Fernando apertou os dedos contra as costas de Bruno. — É o que temos.

A interface mudou. Linhas de conexão apareceram entre o núcleo de Bruno e seus músculos, formando um circuito fechado. A mana que antes escapava em fios azuis agora era puxada de volta, reabsorvida pelo corpo do guerreiro.

Bruno sentiu na hora.

— O que... a dor passou. — Ele olhou para as próprias mãos. A mana estava fluindo sem vazar. — É isso? É assim que um núcleo saudável se sente?

— Isso é uma gambiarra. — Fernando sentiu a mana dele sendo drenada rapidamente. — Mas funciona. Agora luta.

Bruno sorriu — um sorriso largo, quase selvagem — e avançou.

O que aconteceu nos dois minutos seguintes foi algo que Fernando nunca tinha visto. Bruno lutava como se tivesse dez anos a menos, como se o núcleo fissurado nunca tivesse existido. Seus golpes eram mais rápidos, mais fortes, mais precisos. Ele abateu dois Lurker em segundos, depois um terceiro, depois um quarto.

— QUARENTA SEGUNDOS! — Fernando gritou, sentindo a mana queimar. — MAIS UM MINUTO E VINTE!

Bruno não respondeu. Ele já estava no palco, enfrentando o monstro principal — uma criatura humanoide com carapaça de cristal e olhos que brilhavam como brasas.

Rank C.

— Isso vai ser apertado — Fernando murmurou, sentindo a mana caindo perigosamente.

MANA: 82. Um minuto restante.

Bruno atingiu a criatura com um golpe vertical. A espada lascou a carapaça, mas não penetrou. O monstro respondeu com um ataque que jogou Bruno contra a parede do palco.

— CINQUENTA SEGUNDOS!

Bruno se levantou, cuspiu sangue, e avançou de novo. Dessa vez, mirou nas juntas da carapaça — onde o cristal era mais fino. A espada entrou. A criatura gritou.

MANA: 45. Trinta segundos restantes.

— VAI, BRUNO!

O guerreiro enfiou a espada até o cabo. O monstro tremeu, sua carapaça se estilhaçou, e ele caiu no palco com um impacto que sacudiu todo o teatro.

MANA: 23. Ciclo encerrado.

Fernando tirou a mão das costas de Bruno e caiu de joelhos, ofegante.

Bruno virou-se, sua respiração pesada, seus olhos brilhando com algo que Fernando nunca tinha visto nele antes.

Vida. Energia. Força.

— Funcionou — Bruno disse, a voz trêmula. — Por dois minutos, eu fui eu again.

Fernando riu, ainda sem fôlego. — Dois minutos. Parece que temos uma base.

— Mais que uma base. — Bruno desceu do palco e estendeu a mão para ajudar Fernando a levantar. — Temos uma parceria.

Fernando aceitou a mão. Pela primeira vez, ele sentiu que não estava mais sozinho na luta.