Capítulo 13 de 94
CAPÍTULO 13 — CALIBRAGEM
A dungeon abandonada ficava na Zona Norte, embaixo de uma subestação elétrica desativada. Bruno estacionou a van em um terreno baldio coberto de mato alto e desligou o motor.
— Segundo o relatório, a entrada principal foi lacrada pela guilda há seis meses. — Ele apontou para um bueiro enferrujado a vinte metros de distância. — Mas a equipe de limpeza nunca veio. A classificação foi alterada de C para D uma semana antes do lacre.
— Alguém queria esconder o que tem lá dentro. — Fernando ajustou os óculos. As novas lentes que Hiroshi havia dado ainda estavam no estojo — ele não se sentia pronto para testá-las. — Vamos.
Eles desceram pelo bueiro. A escada de ferro estava coberta de limo e ferrugem, e o cheiro que subia das profundezas era uma mistura de esgoto seco e mana apodrecida.
— Sistema — Fernando murmurou. — Leitura do ambiente.
AMBIENTE: TÚNEL DE ACESSO — DUNGEON RANK C (CLASSIFICADA COMO D). SATURAÇÃO DE MANA: 180% ACIMA DO NORMAL PARA ESTA PROFUNDIDADE. RECOMENDO CAUTELA.
— Rank C. Confirmado. A reclassificação é falsa.
Bruno rangeu os dentes. — Sabia. Esses filhos da puta.
Eles avançaram pelo túnel. As paredes de concreto gradualmente cediam lugar a pedra bruta — sinal de que estavam entrando na zona de influência da dungeon. A temperatura caía. A luz da lanterna de Bruno parecia engolida pela escuridão à frente.
— Primeiro contato à vista — Bruno avisou, apontando para um aglomerado de formas escuras no fundo do corredor. — Parecem... carcaças.
Fernando se aproximou. Eram restos de monstros — cascas vazias, como se toda a mana tivesse sido sugada para fora deles. Mas não havia marcas de luta. Nenhum golpe. Nenhum ferimento.
— Eles não foram mortos — ele percebeu. — Foram drenados.
— O que drena monstros?
— Algo que precisa de muita mana.
A resposta veio na forma de um som. Não um rugido, nem um grunhido. Era um zumbido. Baixo, constante, como o som de um transformador elétrico sob carga.
ALERTA: FONTE DE MANA DE ALTA DENSIDADE DETECTADA. DISTÂNCIA: 40 METROS. RECOMENDO EVACUAÇÃO.
— O sistema está mandando a gente sair — Fernando disse.
— Desde quando você obedece ordens? — Bruno puxou a espada. — Vamos.
Eles seguiram o zumbido. O túnel se abria em uma câmara circular, o teto coberto de cristais que brilhavam com uma luz púrpura doentia. No centro da câmara, uma massa pulsante de carne e cristal ocupava o espaço como um tumor no chão.
— O que é aquilo? — Bruno sussurrou.
Fernando ativou a leitura.
NOME: NÚCLEO DE MANA CORROMPIDO / RANK: ESTIMADO C+] [HP: 2.400/2.400] [MANA: 840/840] [CONDIÇÃO: ESTÁVEL — EMISSÃO CONSTANTE DE MANA CORROMPIDA] [TALENTOS: DRENAGEM DE MANA, PULSO DE CORRUPÇÃO, CONVOCAÇÃO DE CRIATURAS
— É uma colônia viva — Fernando respondeu, a voz tensa. — Ela drena a mana do ambiente e atrai monstros. Se crescermos o suficiente, vira um núcleo de Rank B.
— E a guilda classificou isso como Rank D?
— Eles queriam que isso crescesse. — Fernando entendeu naquele momento. — Não foi erro. Foi intencional. Alguém está cultivando núcleos de mana pela cidade.
O núcleo pulsou. Uma onda de choque invisível varreu a câmara, e Fernando sentiu sua própria mana sendo puxada para fora do corpo.
— Ele está tentando me drenar — ele grunhiu, segurando os óculos no lugar.
INTERFERÊNCIA DETECTADA. O NÚCLEO ESTÁ EMITINDO UM PULSO DE RESSONÂNCIA. SEU ROOT ESTÁ SENDO AFETADO.
— Bruno! — Fernando gritou. — Preciso chegar perto! Para editar!
— Você vai morrer se chegar perto disso!
— E você vai morrer se eu não fizer nada!
Bruno hesitou por um segundo. Depois praguejou baixo e avançou, a espada brilhando com mana.
Ele atingiu o núcleo com um golpe vertical. A lâmina cortou a carne, mas a ferida se fechou em segundos, como se o núcleo tivesse se antecipado ao dano.
— Isso se regenera rápido demais! — Bruno gritou, recuando.
— Não precisa matar. Só precisa segurar. — Fernando respirou fundo e correu.
Ele passou por Bruno, desviou de um tentáculo de carne que surgiu do chão, e caiu de joelhos ao lado do núcleo. Suas mãos tocaram a superfície pulsante.
A interface dourada explodiu diante dos seus olhos.
CONTATO COM NÚCLEO DE MANA CORROMPIDO. ACESSO ROOT DISPONÍVEL. DESEJA EDITAR?
— Sim — Fernando murmurou. — Corromper o núcleo. Reverter o processo. Devolver a mana ao ambiente.
CUSTO: 200 MANA. MANA DISPONÍVEL: 23. INSUFICIENTE.
— Droga! — Ele bateu a mão no chão. — Bruno! Os cristais! Me traz um!
Bruno estilhaçou um dos cristais da parede com o cabo da espada e jogou para Fernando. O avaliador pegou o fragmento no ar e o apertou contra o núcleo.
DRENANDO CRISTAL DE MANA — GRAU II. MANA OBTIDA: 45. MANA TOTAL: 68. AINDA INSUFICIENTE.
— Mais! — Fernando gritou.
Bruno quebrou outro. E outro. Fernando drenava cada um, sentindo a mana queimar suas veias, o corpo inteiro vibrando com a sobrecarga.
MANA: 212. CUSTO: 200. CONFIRMAR EDIÇÃO?
— CONFIRMAR!
O mundo explodiu em luz dourada.
O núcleo tremeu. A carne começou a se desfazer em partículas de luz, a mana corrompida sendo puxada de volta para o ambiente em fios brilhantes. O zumbido diminuiu, virou um chiado, e depois silêncio.
Fernando caiu para trás, exausto.
Bruno correu até ele. — Você conseguiu?
— Consegui. — Fernando tossiu, cuspindo um gosto metálico. — Mas acho que vou desmaiar agora.
— Pode desmaiar. Eu carrego você. — Bruno o puxou para cima. — Mas antes, olha isso.
Ele apontou para o que restou do núcleo. No centro das cinzas brilhantes, um cristal vermelho pulsava — idêntico ao que Bruno havia encontrado na dungeon anterior.
— Outra insígnia da Arcadium.
Fernando pegou o cristal. Gravado na superfície, quase invisível, havia um número de série.
PROTOCOLO: ARC-47-B / LOTE: 12
— Isso é um código de rastreamento interno. — Fernando apertou o cristal. — Alguém na Arcadium está plantando esses núcleos pela cidade.
— Por quê?
— Ainda não sei. Mas vou descobrir.