Capítulo 14 de 94
CAPÍTULO 14 — O TERMINAL ESQUECIDO
Três dias depois, Fernando estava no subsolo mais profundo da Guilda Arcadium.
Não era um lugar que funcionários comuns deveriam conhecer. O arquivo morto ficava quatro andares abaixo do estacionamento, em uma sala sem janelas que cheirava a papel mofado e poeira de mana. Os terminais ali eram relíquias — monitores CRT, teclados com poeira acumulada nas teclas, sistemas operacionais que ninguém atualizava há uma década.
Perfeito para ser invadido.
Fernando tinha conseguido acesso usando uma desculpa esfarrapada — "preciso verificar relatórios de extração de 2019 para uma auditoria fiscal" — e um documento forjado que Bruno havia conseguido com um contato. O segurança do arquivo mal olhou para a papelada.
— Fique à vontade. Se precisar de ajuda, é só chamar.
— Obrigado.
O segurança saiu. Fernando ficou sozinho na sala.
Ele se sentou diante do terminal mais antigo, o que tinha uma etiqueta "ARCADIUM SISTEMAS LEGADOS — ACESSO RESTRITO" colada sobre o monitor. Ligou a máquina. O ventilador interno chiou como se fosse morrer, mas o sistema inicializou.
— Sistema — murmurou. — Você consegue interfacear com esse terminal?
SIM. O SISTEMA OPERACIONAL É PRIMITIVO, COMPATÍVEL COM INTERFACES DE MANA DE BAIXO NÍVEL. CONECTANDO...
A tela piscou. O prompt do sistema legado apareceu — não em janelas, mas em texto puro, verde sobre fundo preto.
CONECTADO. ACESSANDO BANCO DE DADOS CENTRAL — ARCADIUM SEGURANÇA INTERNA. REQUER CREDENCIAIS DE ADMINISTRADOR.
— Eu não tenho credenciais de administrador.
VOCÊ TEM ACESSO ROOT. O TERMINAL NÃO SABE DISSO.
O cursor piscou. Então, lentamente, a tela começou a se preencher com dados.
Fernando passou as três horas seguintes navegando por arquivos que ninguém havia tocado em anos. Relatórios de extração. Classificações de fenda. Ordens de pagamento para equipes de limpeza que nunca existiram.
E uma pasta, protegida por criptografia dupla, com o título: "PROJETO CODIFICADOR."
— É aqui. — Ele clicou na pasta.
ACESSO NEGADO. REQUER AUTENTICAÇÃO BIOMÉTRICA DE DIRETOR.
— Droga. — Fernando bateu com a mão no teclado. — Tão perto.
POSSO TENTAR UMA ABORDAGEM ALTERNATIVA. A CRIPTOGRAFIA BIOMÉTRICA USA PADRÕES DE MANA DO DIRETOR. SE EU CONSEGUIR UMA AMOSTRA DA ASSINATURA DE MANA DELE...
— A assinatura de mana do diretor?
O DIRETOR DA ARCADIUM, JOAQUIM VIANA, TRANSPORTA CONSTANTEMENTE UM ARTEFATO DE MANA PESSOAL. SE VOCÊ CONSEGUIR SE APROXIMAR DELE POR 30 SEGUNDOS, POSSO CAPTURAR A ASSINATURA.
Fernando guardou a informação. O diretor Viana era uma figura distante — aparecia em cerimônias e reuniões do conselho, sempre cercado por seguranças.
Mas isso era um problema para outro dia.
Ele continuou fuçando. Encontrou listas de funcionários desligados. Avaliadores que trabalharam nas fendas reclassificadas. Todos marcados como "DESLIGADOS" — e em vários casos, "DESAPARECIDOS" ou "FALECIDO EM ACIDENTE".
Sete pessoas. Sete avaliadores que vieram antes dele. Todos mortos ou desaparecidos.
O último nome da lista era: "RAFAEL M. — DESLIGADO — FALECIDO (CAUSA: ACIDENTE COM ARMA EXPERIMENTAL)."
— Rafael está aqui. — Fernando sentiu o sangue ferver. — A guilda tem um arquivo sobre ele.
Ele tentou abrir o arquivo de Rafael, mas a mesma criptografia biométrica bloqueava o acesso.
— Preciso da assinatura do diretor.
CORRETO. SEM ELA, NÃO CONSIGO ACESSAR OS DADOS DO PROJETO CODIFICADOR.
Fernando desligou o terminal. As três horas de busca tinham rendido pistas importantes — mas também revelado o tamanho do perigo.
Sete avaliadores antes dele. Sete mortos.
Ele seria o oitavo.
Enquanto guardava os óculos no estojo, um pedaço de papel caiu do bolso — um fragmento da mensagem que o sinal prateado havia transmitido na primeira noite.
"FUJA DA ARC... ELES SABEM SOBRE... O CODIFICADOR ANTES DE VOCÊ..."
Fernando amassou o papel.
— Não vou fugir. — Sua voz era baixa, mas firme. — Vou descobrir o que fizeram com Rafael. E vou fazer justiça.
Ele saiu do arquivo morto sem olhar para trás.