Capítulo 12 de 94
CAPÍTULO 12 — A SEGUNDA VISITA
Antes da missão, Fernando precisava de respostas.
A oficina de Hiroshi estava no mesmo lugar — escondida atrás da loja de ferragens no Brás, a porta de entrada tão discreta que qualquer um passaria por ela sem notar. Mas dessa vez, quando Fernando empurrou a porta, algo era diferente.
Uma campainha soou. Não elétrica — mágica. Um anel fino de mana percorreu a sala como uma onda, passando por Fernando e dissipando na parede dos fundos.
— Sistema, o que foi isso?
VARREDURA DE IDENTIFICAÇÃO. O FERREIRO INSTALOU UM SISTEMA DE SEGURANÇA CONTRA INVASORES.
— Esperto.
Hiroshi apareceu da porta dos fundos, as mãos sujas de graxa e mana cristalizada. Ele parou ao ver Fernando, e sua expressão endureceu.
— Pensei que tinha dito para voltar só quando os óculos quebrassem.
— Eles não quebraram. Ainda. — Fernando entrou sem esperar convite. — Preciso de informação antes de quebrá-los.
— Informação custa caro.
— Essa informação é sobre o Rafael.
O nome funcionou como uma chave. Hiroshi congelou, a mão pairando sobre uma ferramenta na bancada. Seus olhos, por trás das lentes de aumento, se estreitaram.
— Onde ouviu esse nome?
— Um sinal. Uma conexão. — Fernando sentou em um banco manchado de óleo. — Apareceu depois que eu coloquei os óculos. Mensagens fragmentadas. Uma delas mencionava "o codificador antes de você". O dono da oficina do seu lado confirmou: o último codificador que ele conheceu morreu há vinte anos. E esse codificador se chamava Rafael.
Hiroshi não respondeu imediatamente. Ele pegou um pano sujo e limpou as mãos devagar, como se estivesse ganhando tempo.
— O que mais o sinal disse?
— Fragmentos. "Fuja da Arcadium." "Eles sabem." E referências a uma arma.
A palavra pairou no ar. Hiroshi fechou os olhos por um momento. Quando os abriu, algo havia mudado. O velho ferreiro não parecia mais ranzinza — parecia cansado.
— Rafael tinha 24 anos quando eu o conheci. — Hiroshi puxou um banco e sentou-se pesadamente. — Era office boy de uma guilda pequena, no Tatuapé. Um dia, ele apareceu na minha oficina com as mãos brilhando, pedindo ajuda. Disse que ninguém mais podia saber.
— Por que ele veio até você?
— Porque eu tinha fama de trabalhar com o que ninguém mais queria tocar. E Rafael estava desesperado. — Hiroshi apontou para um canto da oficina, onde uma pilha de sucata cobria uma forma metálica. — Ele me pediu para construir uma arma. Algo que pudesse canalizar o Root sem matar o usuário.
Fernando sentiu o estômago apertar. — Você construiu?
— Construí. Funcionou por três anos. — A voz de Hiroshi baixou. — Até o dia em que a arma explodiu. Três caçadores S-rank morreram. A guilda me culpou. Me baníram. Me chamaram de assassino.
— Mas não foi culpa sua.
Hiroshi ergueu a cabeça. Seus olhos estavam vermelhos, não de choro, mas de uma raiva acumulada por vinte anos.
— Como sabe?
Fernando ativou o Root. A interface apareceu diante dele, e ele focou nos diagramas espalhados pela bancada.
— Porque eu consigo ler o código vital dos objetos. E esses diagramas... — Ele apontou para um desenho técnico amarelado pelo tempo. — Eles estão corretos. A canalização de mana é perfeita. O problema não foi a arma. Foi o usuário. Alguém forçou o Root além do limite.
— Impossível. — Hiroshi balançou a cabeça. — Rafael sabia os limites. Ele nunca...
— Ele foi forçado a ultrapassar. — Fernando sustentou o olhar do ferreiro. — As mensagens no sinal dizem que ele foi traído. Que alguém dentro da guilda sabia do poder dele e queria usá-lo para algo maior.
O silêncio que se seguiu foi pesado como chumbo.
— Se isso for verdade — Hiroshi disse, a voz trêmula — então o Rafael foi assassinado. E eu passei vinte anos carregando uma culpa que não era minha.
— É verdade. — Fernando se levantou. — Mas não tenho provas ainda. Só fragmentos. Por isso preciso de mais. Preciso saber como ele usava o Root. Que habilidades ele desenvolveu. Porque as minhas estão crescendo, e se eu não entender os limites, vou acabar igual a ele.
Hiroshi ficou em silêncio por um longo momento. Depois, lentamente, ele se levantou, foi até um armário trancado no canto da oficina, e tirou uma caixa de metal enferrujada.
— Isso era do Rafael. — Ele colocou a caixa na bancada. — Ele deixou aqui uma semana antes de morrer. Disse que era "precaução". Disse que se algo acontecesse com ele, eu deveria entregar para o próximo Codificador que aparecesse.
Fernando abriu a caixa.
Dentro, havia um caderno encadernado em couro, as páginas amareladas pelo tempo. E, sobre ele, um par de lentes de cristal — maiores, mais escuras, mais complexas que as dos óculos V1.0.
— O que são essas lentes? — Fernando perguntou, a voz quase um sussurro.
— O protótipo do protótipo. — Hiroshi pegou as lentes com cuidado. — Rafael me pediu para fazer algo que amplificasse o Root sem precisar de contato físico. Eu nunca terminei. Depois que ele morreu, guardei e jurei nunca mais tocar.
— E por que está me dando?
— Porque você veio. — Hiroshi entregou as lentes a Fernando. — Porque você está no mesmo caminho que ele. E porque dessa vez, eu não vou deixar a guilda matar outro Codificador antes da hora.
Fernando segurou as lentes. Elas eram frias, pesadas, e pulsavam com uma energia que ele não conseguia identificar.
— Eu não sei usar isso.
— Aprenda rápido. — Hiroshi virou as costas. — Porque quem matou o Rafael ainda está vivo. E quando descobrir que você existe, vai vir atrás.