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CAPÍTULO 11 — O SINAL PRATEADO

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Capítulo 11 de 94

CAPÍTULO 11 — O SINAL PRATEADO


Os óculos de cristal vibravam.

Não era uma vibração física — Fernando não sentia nada na armação contra a pele. Era uma frequência, uma assinatura de mana que pulsava no canto da sua percepção como um sino distante tocando debaixo d'água.

Ele os havia tirado há cinco minutos, depois de uma noite inteira de teste. Mas a vibração continuava.

— Sistema. — Fernando esfregou os olhos cansados. — O que é esse sinal?

O SINAL PRATEADO DETECTADO ANTERIORMENTE PERMANECE ATIVO. ELE OPERA EM UMA FREQUÊNCIA DE MANA INCOMPATÍVEL COM SEU NÍVEL ATUAL DE PERCEPÇÃO, MAS OS ÓCULOS V1.0 CONSEGUEM TRADUZI-LO PARCIALMENTE.

— Parcialmente?

CERCA DE 12% DO SINAL É DECODIFICÁVEL. O RESTO É RUÍDO — INTERFERÊNCIA DE OUTRAS FONTES DE MANA URBANA, OU PROTEÇÃO INTENCIONAL DO EMISSOR.

Fernando colocou os óculos de volta. O mundo se desdobrou em camadas — a parede do quarto, a tubulação elétrica atrás do gesso, o brilho fraco de mana residual vindo da rua. E, sobreposto a tudo, um fio prateado que atravessava a cidade como uma linha de pesca invisível.

Ele estendeu a mão. O fio não se movia. Mas quando ele focava nele, fragmentos de informação surgiam:

... PROTOCOLO: 47-B / STATUS: AGUARDANDO / RISCO: ALTO ...] [... ARC... DADOS CORROMPIDOS ...] [... O CODIFICADOR ANTES DE VOCÊ ...

A mensagem se desfazia antes de completar. Como um sinal de rádio antigo tentando transmitir através de uma tempestade.

— Não consigo ler tudo.

RECOMENDO APROXIMAÇÃO. QUANTO MAIS PERTO DA ORIGEM DO SINAL, MAIOR A TAXA DE DECODIFICAÇÃO.

Fernando olhou pela janela. O fio prateado se estendia na direção da Zona Leste, para além do horizonte de prédios e fumaça.

— Amanhã. — Ele tirou os óculos. — Preciso dormir antes de fazer merda.

Mas o sono não veio fácil.

Ele ficou deitado na cama por horas, o teto do conjugado desfocado na escuridão, a mente girando em torno dos fragmentos. "O codificador antes de você". A criatura no túnel tinha dito algo parecido. E agora o sinal repetia.

Quantos Codificadores vieram antes dele? E onde estavam agora?

O celular vibrou. Uma mensagem de Bruno:

"Consegui algo. Amanhã, 19h, no mesmo lugar."

Fernando guardou o telefone sem responder. Lá fora, a cidade continuava pulsando — mana, metal e segredos entrelaçados em uma rede que ele apenas começava a desenrolar.

No meio da madrugada, quando finalmente fechou os olhos, ele sonhou com linhas de código dourado escorrendo como sangue pelas paredes de um prédio em chamas. E uma voz, distorcida como a da criatura no túnel, repetindo a mesma frase:

"Fuja da Arcadium."

A lanchonete de beira de estrada estava mais vazia que da outra vez. Bruno ocupava a mesma mesa no fundo, mas dessa vez não havia café na frente dele. Havia um envelope pardo, amarrotado, com manchas de gordura nos cantos.

— Parece que você não dormiu — Bruno observou quando Fernando se sentou.

— Parece que você também não.

Bruno empurrou o envelope para o meio da mesa. — Encontrei isso nos arquivos mortos da guilda. Um contato meu da limpeza liberou o acesso em troca de uns cristais que eu guardava.

Fernando abriu o envelope. Dentro, havia fotografias impressas em papel de baixa qualidade — imagens granuladas de documentos internos.

— O que é isso?

— Registros de todas as fendas reclassificadas nos últimos três anos. — Bruno apontou para a primeira foto. — Vinte e três ocorrências. Em todas elas, a classificação original foi rebaixada em pelo menos dois níveis. Rank C virou E. Rank D virou F. A do shopping foi a gota d'água.

Fernando folheou as fotos. Os números batiam com o que ele havia encontrado no terminal legado da guilda.

— Tem um padrão aqui. — Ele passou o dedo sobre as datas. — Todas essas reclassificações aconteceram entre o dia 10 e o dia 15 de cada mês. Como se alguém estivesse fazendo isso em lote.

— Um funcionário com acesso ao sistema de classificação.

— Ou alguém que pode forjar acesso. — Fernando lembrou do homem de terno preto. — Durante o interrogatório, um cara apareceu. Terno preto, sem crachá, sem identificação. Fez perguntas estranhas. Não era segurança padrão.

Bruno franziu o cenho. — Como ele era?

— Magro. Cabelo grisalho nas laterais. Olhos que não piscavam. Parecia mais um auditor do que um segurança.

— Auditor... — Bruno repetiu a palavra, testando o gosto. — Na Arcadium, auditores externos são contratados pelo conselho diretamente. Não passam pela hierarquia normal. Se esse cara é um deles, ele responde só ao topo.

— Ou ele é o topo disfarçado.

Os dois ficaram em silêncio. O ventilador de teto da lanchonete girava com um zumbido irregular, acompanhado pelo chiado distante de uma televisão sintonizada em um jornal local.

— Precisamos de mais informação — Fernando disse finalmente. — Mas não podemos puxar arquivos internos sem levantar suspeitas.

— Eu conheço um lugar — Bruno respondeu, e havia um brilho nos olhos dele que Fernando já começava a reconhecer como perigoso. — Uma dungeon que a guida abandonou. Rank D oficial, mas a classificação original era C. A equipe de limpeza nunca foi destacada. O relatório de extração está em aberto.

— Você quer invadir uma dungeon que a guilda abandonou?

— Quero invadir e catalogar o que tem lá dentro. Se as criaturas forem de rank superior, é prova de que a reclassificação foi adulterada. Se tiver cristais raros, é dinheiro para financiar nossa operação.

Fernando considerou a proposta. Era arriscada. Ilegal. Exatamente o tipo de coisa que um avaliador de logística não deveria fazer.

— Quando? — ele perguntou.

— Amanhã à noite. — Bruno se levantou. — Vou pegar você às 23h. Vem preparado para lutar.

— Eu não sei lutar.

— Então vem preparado para editar.

Bruno saiu sem esperar resposta. Fernando ficou sentado, o envelope de fotos na mão, o fio prateado pulsando no canto da visão.

Amanhã, ele entraria em uma dungeon ilegalmente. Com um guerreiro de núcleo fissurado. Usando óculos que podiam quebrar a qualquer momento.

Era a primeira missão real de sua vida.

Ele sorriu. Estava ansioso.