Capítulo 9 de 36
Capítulo 9: Os Portões de Ametista
Sol-Valen não era uma cidade construída para homens comuns. Era um monumento à vaidade dos arcanistas.
Erguida sobre três colinas de quartzo branco que refletiam a luz do sol poente em tons dourados e violetas, a capital imperial elevava-se contra as nuvens como uma floresta de agulhas de vidro e mármore polido. Carruagens puxadas por grifos alados cruzavam viadutos suspensos de pedra clara, enquanto arcanistas de mantos escarlates e esmeralda desfilavam pelas avenidas largas como semideuses entre mortais.
Quando a comitiva de Varis — conduzida pelos dois cavaleiros sobreviventes e agora reforçada por uma guarda de choque do Tribunal convocada no posto avançado do desfiladeiro — cruzou os monumentais Portões de Ametista, Elena manteve a postura impecável junto à janela intacta.
Seu olhar não era de deslumbramento rústico, mas de avaliação fria.
Ali, em meio àquele esplendor de mármore e ouro, ela sentia o mesmo cheiro que pairava sobre os corpos podres na fronteira: ambição desmedida mascarada por perfumes caros.
A carruagem não parou diante das masmorras do palácio de justiça, como seria o destino habitual de uma suspeita de heresia. Varis, em dívida direta pela própria vida, ordenou que o coche seguisse para a encosta sul, onde repousava o imponente complexo da Alta Academia de Medicina de Guerra.
— Não se engane, senhorita Elena — advertiu Varis em tom baixo, enquanto desciam no pátio cercado por colunas de alabastro. — Eu salvei você das celas subterrâneas, mas este lugar pode ser cem vezes mais venenoso do que a Garganta do Corvo. Na corte, a espada ataca pela frente; na Academia, a inveja ataca através de pergaminhos e doses homeopáticas.
Elena apenas ajeitou as luvas de camurça limpas que havia apanhado na bagagem.
— Eu lido com venenos desde os doze anos, lorde Inquisidor. As cobras de jardim e as serpentes de mármore compartilham os mesmos dentes.
Ao entrarem no grande vestíbulo abobadado da Academia, o eco de seus passos atraiu olhares imediatos. Dezenas de aprendizes nobres e arcanistas em vestes de veludo branco com detalhes dourados interromperam seus cochichos.
Um homem alto, de ombros estreitos e rosto afilado como uma faca de dissecação, avançava na direção deles. Suas vestes de Grande Erudito arrastavam-se no piso polido, e uma corrente de esmeraldas pesava sobre seu peito magro.
Era o Erudito Dorian, vice-reitor da instituição e aliado pessoal jurado da Casa Vane.
— Varis! — exclamou Dorian, com uma falsa cordialidade que não alcançava seus olhos miúdos e azuis. — Soubemos do terrível incidente no desfiladeiro. Que tragédia parte dos seus homens de armas ter sucumbido... E quem seria esta criatura campestre em vestes de camponesa? Não me diga que é a herborista clandestina de Oakhaven?
Dorian parou a dois passos de Elena, semicerrando os olhos com desprezo indisfarçado, como se estivesse analisando um espécime botânico defeituoso.
— A Academia Imperial é um santuário de erudição divina e cálculos etéreos avançados — continuou Dorian, ajeitando os anéis de pedras preciosas nos dedos. — Não admitimos curandeiras de charco que fingem milagres com cataplasmas de terra e orações de taverna.
Elena deu meio passo à frente. Não baixou a cabeça, nem demonstrou o menor sinal de constrangimento diante daquela exibição pomposa.
— A terra de onde vim cura ossos partidos e fecha artérias abertas, senhor Erudito — respondeu ela, com uma voz tão melodiosa e gélida quanto o estalar de gelo fino sob o sol. — Se os seus cálculos etéreos fossem tão avançados quanto a sua língua, o império não precisaria enviar carroças cheias de rapazes mortos da fronteira todos os meses.
O vestíbulo mergulhou em um silêncio petrificado. Três aprendizes deixaram cair seus pergaminhos no chão.
Dorian empalideceu de raiva, o sangue subindo para as pontas de suas orelhas compridas. Ele deu um passo em direção a Elena com o indicador em riste, mas Varis colocou-se discretamente entre os dois com a mão pousada no pomo de sua varinha.
— Modere suas palavras, Dorian — disse o inquisidor com autoridade gélida. — A senhorita Elena está sob a tutela formal do Tribunal Arcano até a realização do conselho extraordinário de amanhã.
Dorian forçou um sorriso rígido, venenoso como seiva de beladona.
— Excelente. Pois o conselho de amanhã já tem uma pauta definida, Inquisidor. Lorde Cedric Vane solicitou pessoalmente que a competência desta jovem seja testada diante de todos os mestres do império.
O homem inclinou-se ligeiramente na direção de Elena, os dentes brilhando sob a penumbra das lamparinas de éter.
— Amanhã cedo, senhorita Elena, no grande Anfiteatro Cirúrgico. Veremos se o seu famoso "espelho" suporta o peso da podridão que os nossos maiores arcanistas sagrados consideram incurável. Prepare-se para a sua consagração... ou para a fogueira dos hereges.