Capítulo 8 de 36
Capítulo 8: O Veneno da Serpente Alada
O contato com a pele de Varis foi como mergulhar as mãos em um poço de gelo negro.
— Acolha.
O comando mental de Elena ecoou em sua alma.
Instantaneamente, a toxina letal da Lágrima de Wyvern — um dos venenos mais caros e cruéis do submundo imperial — foi sugada para dentro de seu receptáculo. As veias roxas no pescoço do inquisidor esmaeceram e desapareceram; o peito do homem ergueu-se de repente em uma puxada desesperada de oxigênio fresco, embora sua consciência continuasse submersa pelo choque.
Em contrapartida, o corpo de Elena reagiu com uma violência que quase a fez perder os sentidos.
Gélido. Corrosivo. Implacável.
Uma queimação paralisante subiu de seu peito até a mandíbula. O Espelho de Espinhos dentro dela rangia sob a pressão química da toxina, e a linha prateada em seu pulso vibrou em uma tonalidade violácea e perigosa.
Se ela retivesse aquela quantidade de veneno nobre por mais de um minuto, seu próprio coração cessaria os batimentos.
Do lado de fora, uma tocha em chamas foi atirada contra a janela quebrada da carruagem, rolando pelo carpete e incendiando as cortinas de seda índigo. Fumaça preta e asfixiante começou a encher o compartimento.
— O velho já deve estar sufocando no próprio sangue! — gritou o líder dos mercenários lá fora. — Traga o azeite para selar o resto!
Elena não tossiu. Não gritou.
Com uma calma aterradora, ela chutou a tocha para longe, ajeitou a gola do vestido com uma das mãos e empurrou a porta emperrada da carruagem com a ponta da bota.
A porta abriu-se de par em par, revelando a névoa úmida da Garganta do Corvo.
Três dos cavaleiros imperiais da escolta jaziam mortos na lama, alvejados por dardos envenenados. Quatro homens encapuzados, vestidos com gibões de couro negro e empunhando espadas curtas curvas, estavam parados em semicírculo diante do estribo, prontos para lançar o azeite.
Quando a porta se abriu, eles não viram um inquisidor moribundo.
Viram uma jovem de porte refinado, com os cabelos castanhos dançando ao vento da serra e os olhos brilhando em um violeta espelhado e profundo.
— Quem é você, garota? — zombou o líder, dando um passo à frente com a espada erguida. — Saia logo antes que queime junto com o carrasco da capital!
Elena desceu o estribo de prata. O salto de suas botas pousou com leveza sobre a lama da estrada.
Ela ergueu a mão direita aberta em direção aos homens. Pela primeira vez, ela não pretendia tocá-los fisicamente. A expansão de seu espelho em Oakhaven havia lhe ensinado algo novo: a dor não precisa de carne para caminhar; ela precisa apenas de um condutor.
— O seu contrato termina aqui — disse ela em um sussurro aveludado.
No ar entre os dedos de Elena, linhas finíssimas de luz prateada e roxa ganharam forma — as Gavinhas de Espinhos. Eram fios etéreos quase invisíveis, finos como teias de aranha, que dispararam pela névoa fria como flechas silenciosas.
Antes que os mercenários pudessem erguer as espadas, os fios tocaram suas roupas.
O contato com o tecido foi o suficiente. O veneno da Lágrima de Wyvern, acumulado e multiplicado no espelho de Elena, correu pelos fios como relâmpago líquido.
Tssssss.
O líder dos assassinos parou no meio do passo. A lâmina curva escorregou de seus dedos dormentes, caindo com um som surdo no barro.
Os quatro homens levaram as mãos à garganta ao mesmo tempo. Suas veias saltaram sob a pele do pescoço em tons de roxo escuro, idênticas às que consumiam Varis segundos atrás. Eles caíram de joelhos em uníssono, engasgando no próprio veneno com que pretendiam silenciar a carruagem imperial.
Em menos de vinte segundos, o silêncio da Garganta do Corvo retornou, quebrado apenas pelo estalar das chamas na janela e pela aproximação apressada dos dois últimos cavaleiros sobreviventes da escolta imperial, que haviam acabado de abater os batedores emboscados na retaguarda e corriam para apagar o fogo na cabine.
Elena recolheu a mão. A queimação em seu peito dissipou-se instantaneamente, deixando apenas a linha no pulso mais brilhante e polida. O Espelho estava limpo outra vez.
Um gemido fraco veio do interior do coche.
Varis rastejou até a soleira da porta aberta, apoiando-se no batente de madeira chamuscada. O velho inquisidor estava pálido e com a respiração curta, mas vivo. Seus olhos cinzentos arregalaram-se ao ver os quatro assassinos mortos no chão, sem um único arranhão externo em seus corpos.
Ele olhou para Elena, depois para o corpo do líder caído a dois passos dela.
Elena caminhou com elegância até o cadáver, curvou-se sem sujar o vestido na lama e puxou a luva esquerda do assassino.
No dedo indicador do homem repousava um anel de sinete em platina fosca. Gravada no metal, a silhueta de uma víbora alada entrelaçada a três lanças.
— A Casa Vane foi descuidada — disse Elena com naturalidade, retirando o anel do dedo do morto e oferecendo-o na palma aberta da mão ao inquisidor. — Parece que o senhor terá que me levar à capital como testemunha principal, e não como prisioneira, lorde Varis.
Varis olhou para o anel de platina, depois para o rosto impecável daquela jovem herborista de fronteira. Um arrepio correu pela espinha do velho magistrado.
— Você não é uma boticária comum — murmurou ele, aceitando a prova com dedos trêmulos. — Que os deuses tenham piedade da Casa Vane quando chegarmos a Sol-Valen.