Capítulo 7 de 36
Capítulo 7: A Carruagem dos Julgadores
O rangido compassado do eixo de carvalho e o trote firme de quatro parelhas de garanhões negros eram os únicos sons a romper a neblina da Garganta do Corvo.
Elena estava sentada sobre o veludo escuro do banco estofado. As mãos repousavam sobre o regaço, enluvadas com camurça macia, o vestido de linho azul-petróleo impecavelmente ajustado sem um único vinco desnecessário. Diante dela, uma pequena mesinha de nogueira polida sustentava seu almofariz de pedra e dois frascos selados de tintura calmante.
À sua frente, ocupando quase todo o espaço da cabine com sua presença solene, estava o Inquisidor-Chefe Varis.
O homem não usava armadura, mas suas vestes longas de seda índigo, debruadas com arminho e presas por correntes de prata pesada, carregavam mais autoridade do que uma legião de infantaria. Seus cabelos grisalhos estavam cortados rente, e os olhos, de um cinza tão límpido quanto granito polido, não haviam se desviado de Elena desde que deixaram as colinas de Oakhaven para trás.
— A senhorita fala pouco para alguém que acabou de derrubar o herdeiro de uma das casas fundadoras do império — disse Varis, a voz aveludada, modulada com a precisão de um diplomata de corte.
— O silêncio é a melhor ferramenta de um boticário, lorde Inquisidor — respondeu Elena, inclinando a cabeça com polidez calculada. — O paciente em agonia mente. O nobre assustado mente. Mas o sangue e a carne sempre dizem a verdade quando você sabe escutar.
Varis soltou um riso curto, sem calor, mas com uma faísca de genuíno interesse nos olhos.
— E que verdade a carne daquele macho alfa de Espreitador disse aos seus ouvidos, senhorita Elena? Os batedores do vilarejo juram que não viram uma única centelha de fogo, nem lâmina de metal. Disseram que o monstro simplesmente... colapsou, como se tivesse engolido uma centena de maldições acumuladas.
Ele estendeu a mão pálida sobre a mesa, exibindo um anel com sinete gravado com a balança do Tribunal Arcano.
— Magia de transmutação espontânea é considerada heresia de classe três pelas leis imperiais de Sol-Valen. A menos, é claro, que venha acompanhada de uma bênção sancionada pela Santa Sé. Onde estão os seus pergaminhos de consagração?
Elena não piscou. Ela olhou para o anel do homem, depois para os olhos dele.
— O senhor busca um pergaminho para justificar a vida de quarenta aldeões inocentes? Se a lei imperial prefere cadáveres consagrados a sobreviventes de pé, talvez o tribunal precise rever o peso de sua balança.
Varis ergueu uma sobrancelha grisalha. Ninguém na capital falava com um inquisidor sênior naquele tom de elegância desafiadora.
Mas antes que ele pudesse replicar, o mundo lá fora se desfez.
Zuuup.
Um assobio fino e quase imperceptível cortou o vento da montanha.
O cocheiro soltou um arquejo estrangulado do lado de fora. O som pesado de um corpo caindo do assento do condutor ecoou no teto de madeira. Em seguida, os cavalos relincharam em pânico selvagem, e as rodas da carruagem derraparam nas pedras soltas da encosta, jogando a cabine violentamente de lado antes de frear contra a parede do desfiladeiro.
— Emboscada! — gritou a escolta de cavaleiros lá fora, já com o som de lâminas colidindo no meio da névoa.
Varis levantou-se com agilidade surpreendente para a idade, levando a mão ao punho de uma varinha de éter embainhada na cintura.
— Fique abaixada, garota — ordenou ele, virando-se para a portinhola.
Tlec.
O vidro grosso da janela estilhaçou-se em uma chuva de pequenos cristais.
Uma agulha de aço negro, fina como um espinho de roseira e brilhando com um líquido violeta oleoso, atravessou a fresta e cravou-se com precisão milimétrica na lateral do pescoço do inquisidor.
Varis estacou no meio do passo.
Os olhos do homem arregalaram-se. Suas mãos levaram-se à garganta em um reflexo desesperado, os nós dos dedos empalidecendo enquanto ele arrancava a agulha. Mas já era tarde. Veias de um roxo doentio começaram a se desenhar em suas têmporas, espalhando-se rapidamente em direção aos olhos.
— Lágrima de Wyvern... — engasgou Varis, a voz falhando em um gorgolejo espesso enquanto seus joelhos cediam contra o carpete da cabine. — A Casa Vane... eles não querem que cheguemos... à capital...
O Inquisidor-Chefe desabou de costas sobre a mesinha de nogueira, partindo o móvel ao meio. Seus lábios tornaram-se cinzentos em cinco segundos; seus pulmões pararam de inflar.
Do lado de fora, passos pesados de botas com cravos de ferro cercaram a carruagem.
— Matem o velho e queimem o coche! — gritou uma voz ríspida com sotaque da capital. — A garota da botica não pode sair viva deste desfiladeiro!
Elena olhou para o homem agonizante aos seus pés. Se Varis morresse ali, ela seria executada como assassina antes de pôr os pés na cidade. E se não fizesse nada, viraria cinzas dentro daquela cabine de veludo.
Ela despiu as luvas de camurça.
Sob sua pele, a linha prateada no pulso direito reluziu como uma estrela fria.
— Vocês escolheram um péssimo dia para brincar com veneno — murmurou Elena, pousando as duas mãos sobre a garganta envenenada do inquisidor.