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Capítulo 6: Cinzas e Pergaminhos

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Capítulo 6 de 36

Capítulo 6: Cinzas e Pergaminhos


O ar não explodiu. Ele estilhaçou.

Quando as pétalas da flor de vidro negro se fecharam em torno da silhueta colossal do Espreitador Alfa, não houve relâmpago, nem labaredas, nem rugido mágico. Houve apenas o som fino, agudo e enlouquecedor de uma lâmina de cristal deslizando sobre seda pura.

Zzzzz-crac.

O monstro parou no ar, a pata dianteira armada de foices congelada a dois palmos do rosto de Julian Vane.

Nos olhos multifacetados da criatura, o brilho predatório foi substituído por uma contração espasmódica. Então, em um único segundo de retribuição cósmica, tudo aconteceu de uma só vez:

As costelas esmagadas do capitão da vigília estalaram para dentro da carapaça da besta. A coxa dilacerada do veterano rasgou a musculatura da pata traseira do monstro. O veneno corrosivo dos espinhos e presas que haviam perfurado os milicianos dissolveu seus órgãos internos em uma papa fumegante. O sangue do alfa jorrou de dentro para fora, através das frestas de sua armadura natural, como se cem lanças invisíveis tivessem sido cravadas em suas entranhas ao mesmo tempo.

A besta soltou um ganido oco, quase humano, e desabou no barro da praça.

O impacto da carcaça de quatro metros fez a água das poças saltar contra as botas de Elena. As garras do monstro arranharam as pedras uma última vez antes de sucumbirem à imobilidade eterna da morte.

O silêncio que caiu sobre Oakhaven foi absoluto. Apenas o som compassado das gotas de chuva batendo nas telhas do templo ousava quebrar a mudez da noite.

Elena abaixou os braços lentamente.

A respiração dela saiu em uma lufada de vapor branco. Sob sua pele, as ramificações negras e aterradoras começaram a recuar, dissolvendo-se da têmpora, descendo pelo pescoço e pelo antebraço até voltarem a se acomodar no fundo de seu peito. No lugar das fissuras, no entanto, restou um traço sutil: uma linha prateada e fosca, fina como um fio de seda de aranha, gravada de forma permanente ao redor de seu pulso direito.

Uma cicatriz de éter. O Espelho de Espinhos havia se expandido, despertando o seu Primeiro Círculo. Seu limite agora era maior.

Sob o pórtico de pedra, os guardas que Elena salvara observavam a cena sem piscar. Ninguém aplaudiu. Ninguém deu vivas de comemoração. A gratidão estava lá, mas vinha acompanhada de um terror reverente, do tipo que os homens comuns reservam a entidades antigas que dormem nas montanhas.

Elena não era mais a jovem órfã que vendia xarope para tosse.

— Bruxaria... — a voz quebrou o silêncio.

Julian Vane rastejava pela lama, o rosto sujo de barro e lágrimas secas, tentando desesperadamente encontrar apoio nas pedras. O herdeiro da Casa Vane apontava um dedo trêmulo para Elena, os olhos desorbitados.

— Você... você usou artes proibidas! Matou a besta sem uma arma! O Conselho Arcano... meu pai... eles vão arrancar a sua pele numa fogueira por isso!

Antes que Julian pudesse completar o insulto, o capitão da vigília deu três passos pesados à frente.

A cota de malha do homem tilintou. Com o peito agora completamente são e as forças renovadas pelo milagre de Elena, o soldado desembainhou sua espada larga de ferro e cravou a ponta na lama a dois centímetros dos dedos de Julian.

— Guarde sua língua podre, nobrezinho — rosnou o capitão, com a voz gotejando nojo. — Foram as suas iscas que quase condenaram esta vila inteira. Se a senhorita Elena não tivesse colocado as mãos onde nenhum de nós teve coragem de ir, o senhor já estaria nas entranhas daquela carcaça.

Os outros seis milicianos curados deram um passo à frente em uníssono, alinhando suas lanças ao redor de Elena, formando uma muralha viva de ferro e lealdade entre ela e o aristocrata.

Julian engoliu o restante de suas ameaças, encolhendo-se como um cão açoitado.

Elena, no entanto, não precisava de guarda-costas.

Ela caminhou calmamente até parar diante do jovem nobre caído. Suas roupas estavam encharcadas, a barra do vestido manchada de terra, mas a postura de suas costas e o olhar límpido em seus olhos castanhos carregavam mais autoridade do que todas as joias da corte imperial.

— Vá embora de Oakhaven antes que o sol toque as montanhas, lorde Julian — disse ela, a voz baixa, límpida e inabalável. — Recolha os restos do seu bando e leve a história que quiser para a capital. Mas se um dia cruzar o meu caminho outra vez... lembre-se de que meu espelho nunca esquece o peso de uma lâmina.

Julian não respondeu. Apoiou-se nas pedras, levantou-se com as pernas bambas e correu tropeçando pela escuridão da estrada sul, sem olhar para trás nem uma única vez.

❖ ❖ ❖

A aurora surgiu fria e cinzenta sobre o vale.

Na manhã seguinte, a botica de Elena estava em ordem. Boros já havia sido entregue acorrentado à vigília da fronteira junto com o registro formal de sua confissão; as tábuas do chão haviam sido lavadas três vezes com vinagre e cânfora, e as gavetas de carvalho estavam trancadas. Sobre a mesa longa, onde na noite anterior repousavam homens à beira da morte, havia agora apenas uma pequena bolsa de couro de viagem, dois cantis de água e seu fiel almofariz de pedra.

Elena sabia.

O vilarejo a amava, mas o medo é um veneno que fermenta com o passar dos dias. Aquele poder era vasto demais para ser contido em uma cabana de boticário na fronteira.

O som pesado de cascos ferrados e rodas de ferro quebrou a tranquilidade da manhã.

Elena puxou as luvas de camurça fina sobre as mãos, cobrindo com cuidado a linha prateada que marcava seu pulso. Deu a volta no balcão e abriu a porta de madeira.

Na rua principal de Oakhaven, não eram mercenários ou patrulhas locais que paravam seus animais.

Tratava-se de uma comitiva imperial: uma imponente carruagem blindada de laca preta, puxada por quatro parelhas de garanhões negros, escoltada por cavaleiros de elite e adornada com filigranas de ouro e o brasão do Tribunal dos Julgadores Arcanos da Capital — uma balança de ferro sobreposta a uma chama fria.

Um homem de vestes longas de seda índigo e capa de arminho desceu do coche com a ajuda de um estribo de prata. Seus cabelos eram grisalhos e seus olhos, afiados como estiletes, fixaram-se imediatamente em Elena parada na soleira.

Ele retirou de sob a túnica um cilindro de metal polido, quebrado em um selo de cera negra imperial.

— Senhorita Elena? — perguntou o emissário com uma reverência polida, porém carregada da frieza inegociável do império. — Durante a madrugada, os sismógrafos de ressonância etérea da capital registraram uma anomalia de cura transmutativa de escala soberana neste exato vale.

O homem abriu o pergaminho, cujas letras douradas brilhavam com magia de convocação irrevogável.

— Em nome da Coroa e da Alta Academia de Medicina de Guerra de Sol-Valen... o seu isolamento chegou ao fim.

Elena olhou para a carruagem, depois para as montanhas ao longe. Um leve, quase imperceptível sorriso de resignada elegância tocou seus lábios.

Ela apanhou sua bolsa de viagem.