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Capítulo 5: A Flor de Vidro Negro

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Capítulo 5 de 36

Capítulo 5: A Flor de Vidro Negro


A chuva de outono caía com a força de chicotadas de gelo sobre a praça central de Oakhaven.

O barro espesso misturava-se a poças de sangue escarlate sob o reflexo alaranjado das tochas caídas. As pesadas toras de carvalho da paliçada norte haviam sido estilhaçadas como gravetos secos. Ao fundo, o sino da torre de vigília não tocava mais; o vigia fora arrancado de seu posto antes mesmo de soar o nono badalo.

Sob o pórtico de pedra do velho templo da vila, os feridos amontoavam-se. Homens e mulheres gemiam contra as lajes frias, apertando ferimentos expostos enquanto familiares choravam na penumbra.

Elena não hesitou por um único segundo.

Ela correu até o abrigo, a barra do vestido cinzento pesada de lama e água. Ajoelhou-se diretamente no chão de pedra, ignorando o frio que subia por seus ossos. Seus cabelos castanhos, antes impecavelmente presos, agora caíam em mechas úmidas sobre os ombros, mas seus olhos permaneciam imperturbáveis.

— Segurem as tochas mais alto! — ordenou ela aos rapazes da milícia que ainda podiam ficar de pé.

O primeiro era um veterano da fronteira, com a coxa aberta até o osso. O sangue arterial jorrava em golfadas quentes.

Elena despiu as luvas encharcadas e pressionou as mãos nuas contra a carne dilacerada.

— Acolha.

O chiado característico soou. Em três segundos, os tecidos se fecharam em uma pele perfeita e sem marcas. O homem piscou, atordoado, o fôlego voltando aos pulmões em um suspiro trêmulo.

Mas, sob a pele do braço direito de Elena, uma nova ramificação negra estalou. A fissura subiu pelo bíceps, serpenteando até a clavícula. A dor daquele corte ardeu em sua carne etérea como brasas vivas.

Ela não parou.

Passou para o próximo: um jovem lanceiro com a traqueia perfurada por espinhos venenosos disparados pelas feras na paliçada.

Toque. Acolhimento. Cura.

A fissura alcançou a base do pescoço de Elena, desenhando veios escuros como mármore rachado sob sua mandíbula delicada.

Mais outro: o próprio capitão da vigília, trazido da paliçada com o peito e as costelas esmagados, seguido por outros quatro milicianos dilacerados pelas garras e presas ácidas da matilha.

Toque. Transferência.

A respiração de Elena tornou-se visível, transformando-se em névoa branca no ar gelado da praça. A temperatura de seu próprio corpo despencava à medida que o Espelho acumulava o fardo da agonia daqueles sete combatentes. Cada batimento de seu coração soava como um martelo batendo em um vidro espesso, à beira da ruptura.

— Senhorita Elena... — balbuciou o capitão da vigília, erguendo-se apoiado a uma pilastra de pedra com o tórax recém-restaurado e os olhos arregalados de reverência apavorada. — O que está acontecendo com a sua pele? Pare... você vai se matar!

— Mantenham a linha de lanças nos fundos do templo — respondeu ela, a voz um sussurro cortante que atravessou o rugido da tempestade. — Não deixem ninguém desprotegido.

Um estrondo abalou a terra.

Do meio da névoa escura que cobria a paliçada destruída, uma sombra colossal emergiu.

Não era apenas um Espreitador. Era o macho alfa da matilha. Tinha mais de quatro metros de comprimento, coberto por placas de quitina negra oleosa e presas recurvadas que gotejavam uma saliva ácida e sibilante. Suas seis patas armadas de foices afiadas rasgavam a calçada de pedras a cada passada pesada.

Os olhos multifacetados da criatura fixaram-se nos civis encolhidos sob o pórtico.

Antes que os milicianos pudessem erguer as lanças, o som frenético de ferraduras cortou a praça.

Julian Vane surgiu na esquina, montado em seu garanhão de guerra puro-sangue. Seus olhos cinzentos estavam arregalados de terror sob as mechas de cabelos loiros encharcados, o pescoço ainda manchado pelo sangue do contragolpe de Elena. Ele brandia o chicote de prata contra quem estivesse no caminho, atropelando os próprios suprimentos dos aldeões em uma fuga desesperada.

— Abram caminho, seus vermes! — gritou o jovem nobre, cego pelo pânico.

Ao cruzar a praça, o cavalo de Julian assustou-se com a silhueta colossal da besta. O animal empinou com um relincho agudo, arremessando o herdeiro da Casa Vane violentamente de costas no barro espesso, exatamente a dez passos das mandíbulas do monstro.

A espada de Julian voou para longe na lama.

O macho alfa ignorou o cavalo em fuga. Voltou sua cabeça monstruosa para o homem no chão, farejando o aroma concentrado do Néctar Escarlate que ainda impregnava o veludo rasgado de Julian.

A fera abriu as mandíbulas triangulares com um sibilo ensurdecedor, preparando-se para estraçalhar o nobre e, em seguida, invadir o santuário com as crianças.

— Não... piedade... socorro! — Julian arrastava-se de costas pelo chão ensopado, chorando e soluçando, as mãos cobrindo o rosto em desespero infantil.

Nenhum soldado comum poderia cruzar aquela distância a tempo. Nenhuma flecha perfuraria a carapaça do alfa.

Mas passos leves avançaram na chuva.

Elena deu três passos para fora da cobertura do pórtico, pisando na lama fria com a elegância de uma rainha atravessando um salão de baile em ruínas.

As fissuras negras cobriam agora todo o lado direito de seu pescoço, subindo até a têmpora e desenhando linhas de ônix sob sua face alva. O peso de sete ferimentos mortais, o veneno paralisante dos espinhos e dezenas de ossos partidos vibrava dentro de seu peito, buscando libertação.

Seu receptáculo havia atingido o limite absoluto. Se ela guardasse aquela dor por mais dez segundos, o espelho se estilhaçaria de dentro para fora, rasgando sua própria carne em pó.

Ela não recuou. Parou exatamente entre o nobre covarde e a boca aberta da besta.

— Você comeu a dor deste vilarejo a noite inteira — sussurrou Elena.

Sua voz suave calou o próprio trovão que cortava as nuvens.

Elena abriu os braços com delicadeza, como quem oferece um abraço solene à noite. No fundo de suas pupilas dilatadas, a escuridão cedeu espaço a um reflexo prateado, gélido e implacável.

Atrás de suas costas, o éter destilado pela agonia dos defensores da vila ganhou forma física pela primeira vez.

Não como fogo ou relâmpago.

Mas como uma flor colossal de pétalas de vidro negro, entrelaçada por milhares de espinhos etéreos que se desdobraram na tempestade com o som cristalino e aterrador de mil lâminas sendo desembainhadas ao mesmo tempo.

— Agora — sussurrou ela, com os olhos fixos na fera —, engula o reflexo.