Capítulo 4 de 36
Capítulo 4: O Gume Invertido
Julian Vane não hesitou.
Para um herdeiro da nobreza imperial, a vida de uma boticária de vilarejo valia menos do que o veludo de sua capa. Com um movimento sutil do pulso, ele pressionou a ponta do estoque triangular contra a garganta de Elena.
Apenas um milímetro. O suficiente para romper a pele macia.
Uma única gota de sangue escarlate brotou, quente e viva, escorrendo pela curva pálida do pescoço de Elena até a gola do vestido.
Mas o sorriso de triunfo nos lábios de Julian durou apenas uma fração de segundo.
Tss.
O som de carne se abrindo ecoou no silêncio da sala.
Julian arregalou os olhos. A mão que segurava a espada tremeu violentamente. Ele levou a outra mão enluvada à própria garganta, sentindo um calor úmido e repentino ensopar o colarinho de seda fina. Quando olhou para os próprios dedos, as pontas estavam manchadas de vermelho fresco.
Um corte exato, limpo e idêntico ardia na lateral de seu pescoço.
— O quê... o que você fez?! — ele engasgou, recuando dois passos tropeçantes. A postura graciosa de duelista desfez-se em pânico primal. — Você me cortou?! Eu sequer vi você se mexer!
Elena não precisou limpar o próprio pescoço; no instante em que o dano fora refletido, sua pele já havia se fechado sem deixar vestígio. Ela apenas deu um passo à frente, fechando a distância que ele tentava abrir.
— Eu avisei, lorde Julian — disse ela, a voz baixa e tranquila como a água parada de um lago de inverno. — O senhor nunca aprendeu que certas superfícies não devem ser atingidas? O que bate no espelho não se perde no vazio. Volta para quem golpeou.
O jovem nobre olhou para a lâmina limpa em sua mão e depois para a mulher que se aproximava sem arma alguma. O terror nos olhos dele transformou-se em fúria histérica.
— Feiticeira maldita! Guardas! Gu—
Ele levou a mão ao medalhão azul em seu cinto, pressionando o botão de ativação de éter para disparar o sinal luminoso para os cavaleiros que patrulhavam a rua principal.
Elena sabia que, se aquele sinal subisse aos céus, dezenas de homens de armas invadiriam a botica em questão de segundos. E ela não teria como esconder Boros, Luka ou o segredo que pulsava em seu peito.
Não agora.
Ela não usou uma adaga. Em vez disso, Elena estendeu a mão direita — a mesma onde a linha negra da fissura pulsava — e agarrou a carcaça de prata do medalhão diretamente no cinto do rapaz.
Contato físico direto.
O resíduo venenoso do Espreitador das Sombras e a tensão bruta que ainda pesavam nas bordas de seu Espelho encontraram uma válvula de escape.
— Descarregar.
CABUM.
Não houve fogo, mas o ar entre eles estalou como um trovão enjaulado.
A gema de éter do medalhão não apenas apagou: ela explodiu em centenas de estilhaços microscópicos de vidro azul, pulverizados pela força da retribuição concentrada. O peito de Julian recebeu o resto da onda de choque. O rapaz foi arremessado contra a porta fechada da botica com um baque surdo, as costas quebrando a tranca de ferro enquanto ele caía sentado na soleira, cuspindo o ar dos pulmões com a força do impacto.
A espada de madrepérola escorregou de seus dedos dormentes, caindo com um tinido inútil na madeira.
Mas o choque direto contra um artefato de éter ativo cobrou seu preço de Elena.
Um chiado de dor escapou de seus lábios cerrados. Ela cambaleou meio passo, segurando o próprio braço direito com a mão esquerda. Sob o tecido do linho, a fina linha negra que antes parava no pulso havia se estendido pelo rebote arcano, subindo pelo antebraço como uma raiz espinhosa até quase atingir a dobra do cotovelo.
A pele ao redor da marca estava fria como mármore de cripta.
O vidro interior está tensionado ao limite, ela percebeu com uma pontada de vertigem. O Espelho de Espinhos, ainda em seu estágio inicial, exigia um descanso que a noite não pretendia lhe dar.
Caído contra a porta arrombada, Julian tentava se erguer, os olhos cheios de lágrimas de dor e humilhação. Mas antes que ele pudesse balbuciar outra ameaça, o mundo exterior silenciou os dois.
Auuuuuuuuu—!
Um uivo cortou a tempestade.
Não era o grito estridente da besta ferida que o jovem batedor enfrentara mais cedo. Era um rugido gutural, profundo, que fez as garrafas nas prateleiras da botica vibrarem e o pó de sálvia dançar sobre as tábuas. O som vinha do alto das paliçadas de madeira do vilarejo.
Segundos depois, o sino de bronze da torre de vigília começou a tocar freneticamente.
Badém! Badém! Badém!
— O Néctar... — balbuciou Julian na soleira da porta, a voz reduzida a um fio infantil de pavor enquanto fitava a escuridão da floresta lá fora. — O macho alfa... ele seguiu o rastro do sangue da fêmea até a paliçada...
Gritos desesperados de homens e mulheres começaram a ecoar pelas ruelas de Oakhaven. O estalar de madeira partindo-se à distância anunciou o pior: as defesas da fronteira haviam cedido.
Elena fechou os dedos ao redor do braço machucado, respirou fundo e forçou a espinha a se endireitar com impecável dignidade.
Ela olhou para o herdeiro caído aos seus pés, depois para a noite em chamas lá fora.
— O senhor trouxe a morte para o meu vilarejo, lorde Julian — disse ela, apanhando um xale escuro sobre os ombros e caminhando em direção à saída. — Levante-se. Porque se você não puder lutar com essa espada, terá que aprender a sangrar no lugar de quem não teve escolha.