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Capítulo 3: O Fio de Prata e Veludo

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Capítulo 3 de 36

Capítulo 3: O Fio de Prata e Veludo


Elena teve menos de dez segundos.

Com a agilidade silenciosa de quem conhecia cada tábua solta daquele piso, ela puxou uma cortina pesada de linho cru sobre a alcova dos fundos, ocultando Boros entorpecido na sombra. Em seguida, pegou um punhado de folhas de sálvia seca e casca de canela moída, jogando-as diretamente sobre o braseiro de ferro que aquecia a sala.

Uma fumaça densa e aromática subiu em espirais suaves, mascarando quase todo o cheiro férrico de sangue e suor.

Ela ajeitou as dobras do avental, limpou a última gota de bálsamo dos dedos e deu três passos em direção à entrada.

A porta rangeu quando o visitante a empurrou com a ponta de uma bota de montaria impecavelmente lustrada.

O homem que entrou não parecia ter mais de vinte e cinco anos. Trajava uma capa de veludo carmesim forrada de arminho, encharcada pela chuva na barra, e uma túnica cinzenta bordada com fios de prata autêntica — o brasão de uma víbora alada da Casa Vane reluzia em seu fecho de platina.

Ele não usava capacete. Seus cabelos loiros estavam puxados para trás, úmidos, e um sorriso indolente repousava em seus lábios finos. Na cintura fina, pendia um estoque de duelo de cabo trabalhado em madrepérola e, ao lado dele, um medalhão de vidro azul pulsava com uma luz fraca e intermitente.

— Que cheiro peculiar para um casebre de fronteira — disse o jovem nobre, a voz aveludada carregando aquele tom condescendente de quem pisa em um estábulo por pura conveniência. — Sálvia, canela... e algo que cheira estranhamente a ozônio.

Elena não recuou. Ela inclinou a cabeça em uma reverência sóbria, perfeitamente medida, digna de uma dama de corte, embora suas vestes fossem as de uma simples boticária.

— As ervas de montanha exigem secagem rápida em noites chuvosas, senhor — respondeu ela, os olhos baixos o suficiente para demonstrar respeito, mas firmes o bastante para não demonstrar fraqueza. — Esta é uma casa de remédios. O senhor procura abrigo da tempestade?

O nobre riu baixo, um som seco e sem calor.

— Procuro algo muito menos delicado que abrigo, senhorita. Procuro um cão de caça que atende pelo nome de Boros. Ele foi visto entrando por esta mesma porta há menos de vinte minutos, arrastando um dos garotos da vigília.

Ele deu dois passos lentos para dentro do cômodo. O som do couro molhado rangendo contra as tábuas do chão parecia alto demais na penumbra.

Foi então que aconteceu.

Assim que o nobre se aproximou a menos de três passos, o medalhão azul em seu cinto emitiu um zumbido quase inaudível — um ressonador de éter, usado por caçadores nobres para farejar resíduos mágicos.

No mesmo instante, o pulso direito de Elena ardeu.

A fina linha negra sob sua pele — a fissura deixada pelo trauma de Boros — pulsou como se um espinho em brasa estivesse sendo cravado diretamente em sua carne. Uma onda de frio cortante subiu por seu antebraço até o peito. O Espelho dentro dela estremeceu, exigindo liberação, reagindo à presença da pedra de éter do invasor.

Elena manteve as mãos entrelaçadas à frente do corpo, os dedos apertando o tecido do avental com força suficiente para esconder o tremor, mas sem que sua respiração vacilasse por uma fração de segundo.

— O senhor Boros esteve aqui — disse ela, o tom de voz tão estável quanto a água de um poço fundo. — Trouxe o jovem Luka com ferimentos superficiais de garras. Ele deixou o rapaz aos meus cuidados e partiu imediatamente em busca de reforços na guarnição central.

O nobre parou diante da mesa onde o batedor ainda dormia sob o efeito do sono reparador.

Ele inclinou-se sobre o rapaz. Seus olhos estreitaram-se ao ver a túnica rasgada e empapada de sangue seco, mas a pele por baixo perfeitamente lisa e intacta.

— Ferimentos superficiais? — ele murmurou, passando a ponta de uma luva de pelica sobre o tecido cortado. — Esse rasgo tem a extensão exata das garras de uma fêmea de Espreitador. Um golpe desses esmaga o esterno de um homem feito. E no entanto... nem uma cicatriz?

Ele virou-se devagar para Elena. O sorriso relaxado havia sumido, substituído pela curiosidade afiada de uma ave de rapina.

— Diga-me, herborista... que tipo de cataplasma fecha uma caixa torácica estilhaçada sem deixar uma única marca na carne?

— O rapaz teve sorte, senhor. A armadura amorteceu o impacto — mentiu ela, sem desviar o olhar do medalhão na cintura dele. — A maior parte do sangue era da própria besta durante a luta na floresta.

O silêncio estendeu-se entre eles como uma corda prestes a arrebentar.

O nobre deu mais um passo em direção aos fundos da loja, os olhos vasculhando a escuridão além da cortina de linho. Seu pé esquerdo bateu em algo sob o balcão de madeira.

Ting.

O som metálico e oco quebrou a atmosfera.

O rapaz baixou os olhos. Ali, sob a borda da bancada, meio escondida pela poeira e pela serragem fresca, repousava uma fivela de ferro retorcida e um pedaço de malha arrebentada, ainda úmida de sangue fresco.

O brasão gravado no metal era inconfundível: o estandarte pessoal dos mercenários contratados pela Casa Vane.

O jovem nobre parou. Um brilho perigoso acendeu em suas íris cinzentas.

— Sorte, você diz? — ele sussurrou.

Com um movimento rápido e fluido, ele sacou quatro palmos de aço cintilante para fora da bainha de madrepérola. A ponta da lâmina fina e triangular pousou com leveza a dois centímetros da garganta de Elena.

O metal cheirava a óleo de baleia e sangue frio.

— Meu nome é Julian Vane — disse ele, a voz descendo a um sussurro gélido que fez as chamas das lamparinas tremerem. — E eu conheço o trabalho dos homens que pago. Boros não deixaria sua cota de malha para trás a menos que estivesse morto ou incapacitado.

Ele inclinou a lâmina um milímetro à frente, tocando a pele alva do pescoço de Elena com a ponta gélida do aço.

— Aquele brutamontes abriu a boca antes de morrer, não abriu? Ele contou a você sobre o Néctar Escarlate.

Julian deu um sorriso sem dentes, os olhos fixos nos dela.

— Você tem duas escolhas, garota da botica. Ou me entrega tudo o que ele disse e me mostra onde escondeu o corpo... ou eu transformo este casebre de madeira na pira funerária de vocês dois antes que a guarda municipal chegue ao fim desta rua.

Elena não engoliu em seco. Não tremeu sob o toque do aço.

Apenas baixou os olhos para a lâmina e, em seguida, ergueu-os de volta para Julian. No fundo de suas pupilas, as sombras prateadas do Espelho começaram a girar, famintas.

— O senhor cometeu um erro de cálculo, lorde Julian — sussurrou ela. — Espadas não me assustam. Especialmente quando quem as segura não tem ideia de quem está realmente sangrando nesta sala.