Capítulo 2 de 36
Capítulo 2: Confissões e Fissuras
O silêncio que se seguiu ao colapso de Boros durou apenas três batimentos cardíacos.
O segundo guarda, ainda ajoelhado junto à mesa onde o batedor dormia em paz, olhava para Elena como se estivesse diante de uma aparição de pesadelo. Os olhos dele saltavam do peito ileso do rapaz para o peito dilacerado do mercenário que se debatia no chão.
— O-o capitão... — balbuciou o homem, a voz falhando em um sussurro estrangulado. — Eu preciso chamar o capitão da vigília...
— Vá — disse Elena, sem virar a cabeça. A voz dela era macia, mas continha o peso de uma ordem inegociável. — Traga o capitão. Mas se você correr pelas ruas gritando sobre milagres e feitiçaria, o pânico matará este vilarejo antes que o sol nasça. Compreendeu?
O homem engoliu em seco, assentiu freneticamente com a cabeça e disparou pela porta aberta, os passos rápidos chapinhando na lama da rua até desaparecerem na chuva.
Elena finalmente soltou a respiração.
Um tremor quase imperceptível percorreu a ponta de seus dedos. Ela levou a mão esquerda ao pulso direito e puxou a manga de linho bege alguns centímetros para cima.
Ali, sob a pele alva e translúcida, uma linha escura e fina como um fio de cabelo serpenteava sobre a veia principal. Não era sangue podre nem veneno comum; parecia uma rachadura minúscula em uma taça de porcelana cara. Uma pontada gélida ardia em seu osso.
A primeira fissura.
O Espelho de Espinhos não era uma bênção gratuita do cosmos. Ele era um receptáculo de alma. Quando ela acolhia o dano alheio e o transmutava, uma fração microscópica daquele trauma ficava retida nas bordas do vidro interior. Se ela acumulasse peso demais sem repouso e infusões purificadoras, o espelho se quebraria de dentro para fora.
Elena fechou os olhos por dois segundos, respirou pelo nariz e cobriu o pulso com a manga.
Depois, caminhou com passos leves até onde Boros agonizava.
O mercenário roncava com dificuldade. O sangue borbulhava na ferida aberta em seu tórax, sujando a cota de malha partida. Quando viu a bainha do vestido cinza de Elena parar a dois palmos do seu rosto, um arrepio visível correu por seus ombros largos.
— Você... o que você é...? — o homem arranhou as palavras, o orgulho completamente esmagado pela dor e pelo terror.
Elena puxou um banco de madeira baixa e sentou-se diante dele. Ajeitou a saia com elegância meticulosa, mantendo a postura ereta, as costas imaculadamente retas. Em seguida, pegou uma pequena tigela de argila na gaveta inferior do banco e um punhado de pó amarelado de flor-de-enxofre.
— Eu sou a herborista — respondeu ela com serenidade. — E neste momento, sou a única pessoa em três léguas de distância capaz de impedir que suas costelas perfurem a artéria aorta.
Ela despejou uma pitada do pó diretamente na borda do corte mais profundo.
O pó reagiu com o sangue em uma fumaça fina. Boros soltou um grito abafado, as unhas arranhando as tábuas do chão em desespero enquanto as lágrimas desciam por seu rosto sujo de barba e lama.
— Isso vai estancar o sangramento maior — disse ela, sem alterar a modulação da voz. — Mas o veneno do Espreitador das Sombras ainda está correndo pelo seu tecido. Você tem menos de dez minutos antes que ele congele seus pulmões.
Elena inclinou o rosto ligeiramente, fitando-o com aqueles olhos castanhos que pareciam profundos demais para uma jovem de vinte anos.
— O Espreitador das Sombras é uma fera das profundezas da Floresta dos Picos — continuou ela. — Eles não descem para o vale. Têm medo do cheiro de fumaça das chaminés de Oakhaven. Quem trouxe a besta para cá, Boros?
— Foi um... foi um acidente... nos emboscou na trilha... — ele mentiu, a respiração entrecortada.
Elena pousou a mão sobre o joelho, em repouso. O olhar dela não vacilou.
— Mentiras aceleram o pulso, senhor Boros. E o pulso acelerado faz o veneno chegar mais rápido ao cérebro. Quer tentar outra vez?
Boros olhou para as mãos dela. Lembrou-se do toque suave no rapaz e da agonia súbita que o atingira do nada. O pavor de sofrer outro golpe invisível superou qualquer lealdade que ele pudesse ter comprado com ouro.
— O jovem lorde... — confessou o homem, a voz trêmula e rouca. — Lorde Julian... filho de Lorde Cedric, da Casa Vane. Ele veio com a comitiva dele caçar troféus para o festival da capital.
Elena franziu sutilmente as sobrancelhas. Uma reação mínima, mas carregada de desprezo aristocrático.
— E como uma comitiva de nobres perde o controle de uma fera a ponto de ela estraçalhar a patrulha da fronteira?
— Eles usaram Néctar Escarlate... — Boros cuspiu um coágulo de sangue. — Uma isca alquímica proibida. Queriam atrair a fêmea alfa da matilha. Só que... a isca era forte demais. Não atraiu apenas uma fera, atraiu três. O lorde e os cavaleiros bateram em retirada para o acampamento alto e deixaram os batedores comuns para trás para atrasar o rastro.
O estômago de Elena apertou, não de medo, mas de uma fria indignação.
Nobres entediados brincando com fogo e deixando as cinzas caírem sobre os que não têm voz.
— Onde está o resto do néctar? — perguntou ela.
— Nas encostas leste... perto do moinho velho... — Boros agarrou a barra da bota de Elena com a mão ensanguentada, os olhos suplicantes. — Eu falei... eu falei tudo! Pela deusa, mulher... tire essa dor de mim... feche isso!
Elena olhou para a mão imunda tocando o couro de sua bota.
Com um movimento suave e deliberado, ela afastou o pé do alcance dele. Não usou o Espelho. O poder dentro dela já estava tenso, e curar Boros agora significaria absorver ainda mais fardo para si mesma.
Em vez disso, ela pegou um rolo de ataduras de linho grosso e um frasco com óleo de dormideira.
— Eu não sou um carrasco, Boros. Mas também não sou sua serva — disse ela, aplicando a gaze com firmeza para estancar a hemorragia externa e jogando duas gotas do óleo na língua dele. — Você não vai morrer esta noite. Mas vai ficar exatamente onde está até a vigília da cidade chegar para ouvir essa mesma confissão.
O mercenário gemeu quando o efeito da dormideira começou a entorpecer seus membros, mas antes que Elena pudesse se levantar para limpar o sangue do chão, o silêncio da chuva foi quebrado por um novo som.
Tloc. Tloc. Tloc.
Ferraduras de ferro pesado golpeando as pedras da rua com calma metódica. Cavalos de guerra, grandes e caros demais para pertencerem a batedores da floresta.
Os passos pararam exatamente em frente à entrada da botica.
Elena permaneceu estática ao lado do banco.
Três batidas secas, feitas com o castão de prata de um chicote ou o pomo de uma adaga, soaram na madeira da porta semiaberta.
Uma voz jovem, masculina e impregnada daquela condescendência polida típica da alta nobreza da capital ecoou do lado de fora:
— Boa noite, senhores. Nosso batedor de aluguel parece ter se perdido no caminho de volta. Disseram-me que o viram entrar aqui.
Pelo vão da porta, a silhueta de uma capa de veludo carmesim recortou-se contra a chuva.
— Senhor Boros? — a voz continuou, suave e venenosa. — O lorde meu pai não aprecia atrasos na entrega dos relatórios.