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Capítulo 25: O Vento de Ferro e Gelo

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Capítulo 25 de 36

Capítulo 25: O Vento de Ferro e Gelo


A proa blindada da nau Cálice de Prata cortava blocos de gelo flutuante com estalos secos que ecoavam pela névoa polar.

Elena encontrava-se no tombadilho do convés superior. O vento cortante da Tundra do Norte chicoteava sua capa forrada de lã de arminho negro, mas suas mãos — protegidas por luvas de veludo azul-profundo — repousavam firmes sobre a amurada de carvalho. Sob o tecido das mangas, os quatro anéis de prata do Espelho Cósmico pulsavam com um calor suave e reconfortante, mantendo a temperatura de seu sangue estável contra o frio desumano de trinta graus abaixo de zero.

À sua frente, erguendo-se sobre penhascos de granito congelado, estava a Fortaleza de Ferro-Frio, sede do Império de Ferro.

O ar cheirava a fumaça de turfa, gordura de urso e um aroma metálico e azedo: a Geada Negra, a maldição trazida por Ymir, o Segundo Soberano do Abismo.

— Eles não são como os cortesãos de Sol-Valen, Grã-Matriarca — advertiu o Inquisidor Varis, tremendo dentro de suas três camadas de lã pesada. — O Rei Torstein só reconhece a autoridade de quem carrega cicatrizes de batalha. Para ele, remédios do sul são fraqueza de homens que têm medo de morrer.

Elena apenas ajeitou a tiara de espinhos de platina sobre os cabelos presos, ladeada pelo General Kaelen, cuja mão descansava firme sobre o punho da espada de aço estelar.

— Homens que se orgulham de sangrar até a morte geralmente mudam de ideia quando a dor congela o estômago, lorde Varis. Venham.

O desembarque no cais de pedra foi cercado por duzentos guerreiros nórdicos com machados de guerra e escudos redondos de carvalho reforçados com ferro. Nenhum deles curvou a cabeça; os olhares eram de pura desconfiança selvagem. Kaelen manteve-se a meio passo atrás de Elena, os olhos vigilantes medindo cada lâmina ao redor.

No grande salão da fortaleza, aquecido por fogueiras gigantescas acesas em caldeirões de ferro, sentava-se o Rei Torstein.

O monarca era um homem gigantesco de dois metros de altura, com uma barba ruiva trançada até o peito e ombros largos cobertos pela pele de um urso-da-neve. Em sua coxa esquerda repousava um machado de batalha de dois gumes, com runas esculpidas no aço.

Ao lado do trono, no entanto, três de seus melhores capitães jaziam estendidos sobre peles de lobo.

A pele dos guerreiros estava tingida de um azul-escuro cadavérico. De suas narinas e bocas não saía ar morno, mas pequenas partículas de gelo negro que estalavam com um chiado venenoso. O sangue que gotejava de seus pulsos abertos congelava antes de tocar o chão.

— O que o imperador dos homens moles quer em minhas terras? — rugiu Torstein, a voz ecoando como avalanche nas vigas de madeira do teto. — Mandou uma dama com coroa de flores para ensinar os homens do norte a chorar?

Murmúrios de escárnio ressoaram entre os guerreiros que cercavam o salão.

Elena não parou. Caminhou pelo centro do tapete de couro cru com passos firmes e calmos, até parar a dois palmos do leito onde o capitão mais jovem sufocava com o gelo nos pulmões.

Ela despiu a luva direita com um movimento lento e aristocrático.

— Eu não vim ensinar o senhor a chorar, Rei Torstein — disse Elena, a voz aveludada cortando o calor das fogueiras com absoluta serenidade. — Vim impedir que o senhor governe um cemitério de estátuas de gelo.

Torstein franziu o cenho, a mão pesada descendo para o cabo do machado.

— Aquele homem foi tocado pelo hálito de Ymir! Se você encostar nele sem ferro-frio, o gelo negro devorará a sua carne em três batimentos!

Elena ignorou o aviso.

Pousou a mão nua diretamente sobre o peito desnudo e congelado do capitão nórdico.

Pele contra gelo mortal.

— Acolha.

O choque térmico foi tão violento que as chamas das fogueiras do salão inclinaram-se na direção de Elena.

A Geada Negra — uma maldição primordial que solidificava a alma — tentou invadir os canais de éter de Elena. Mas os quatro círculos prateados em seu braço direito giraram em uníssono, como engrenagens cósmicas. A temperatura do corpo de Elena não caiu; pelo contrário, seu Espelho converteu a energia do frio em uma corrente de luz purificadora.

Tssssss.

Sob os olhares embasbacados dos duzentos guerreiros nórdicos, o gelo negro que cobria o peito do capitão começou a derreter em água límpida e morna. As veias azuis recuaram; o peito do homem inflou com força, e ele tossiu uma golfada de vapor quente antes de abrir os olhos castanhos, totalmente restaurado.

O silêncio que caiu sobre o Grande Salão foi absoluto.

Elena ergueu a mão molhada da água do degelo e olhou diretamente nos olhos de Torstein.

— O seu gelo é frio, Majestade — sussurrou ela. — Mas o meu espelho já engoliu um oceano inteiro. Agora decida: o senhor lutará ao meu lado contra o monstro lá fora, ou prefere esperar que ele transforme o seu machado em pedra de gelo?

Antes que Torstein pudesse responder, as portas da fortaleza estrondaram.

O uivo de um vendaval desumano invadiu o salão, apagando metade das fogueiras. Da escuridão da nevasca lá fora, sombras aladas de gelo negro despencavam do céu, e um grito ecoou dos postos de vigília:

— As gárgulas de Ymir romperam as muralhas do norte!