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Capítulo 26: O Coração da Geada

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Capítulo 26 de 36

Capítulo 26: O Coração da Geada


A nevasca que invadiu o pátio da Fortaleza de Ferro-Frio não era composta por flocos de neve comuns.

Eram agulhas de gelo negro que perfuravam cotas de malha e escudos de madeira como se fossem feitos de palha seca. Pelo ar cinzento da tempestade, dezenas de gárgulas esculpidas em gelo vivo mergulhavam sobre as muralhas, com presas translúcidas que destilavam a maldição de Ymir.

O Rei Torstein saltou de seu estrado com o machado de dois gumes em punho, o brado feroz cortando o uivo do vento.

— Homens de ferro! Formem a parede de escudos ao redor da forja! — berrou o monarca nórdico, partindo a cabeça de uma gárgula ao meio com um golpe titânico.

Ao lado dele, o General Kaelen desembainhou sua lâmina de aço estelar, decepando no ar as asas de duas bestas de gelo que tentavam flanquear Elena e mantendo o perímetro defensivo inquebrável.

Mas a coragem bruta não podia conter uma maldição do Abismo.

Dois passos atrás de Torstein, um feixe de geada pura disparado do alto atingiu o ombro do rei. O metal de sua ombreira estilhaçou-se em farpas congeladas; a pele por baixo assumiu instantaneamente o tom ébano da Geada Negra. Torstein cambaleou, os joelhos colidindo com o chão pedregoso enquanto o machado de dois gumes escorregava de seus dedos dormentes.

A maldição corria em direção ao coração do rei com a velocidade de uma serpente de gelo.

— Majestade! — gritaram seus comandantes, bloqueados por uma saraivada de monstros alados.

Passos calmos avançaram pela neve.

Elena cruzou o pátio sob a tempestade de agulhas de gelo sem empunhar escudo ou desembainhar aço. A cada passo de suas botas, o solo congelado ao redor de seus pés descongelava em círculos perfeitos de terra fértil e grama verdejante.

— Afastem-se — ordenou ela aos guardas nórdicos.

Ela ajoelhou-se ao lado do gigante caído. Torstein olhava para ela com olhos turvos pela névoa do congelamento; o fôlego saía de seus lábios em estertores gelados.

Elena não hesitou. Ela segurou a nuca do rei com a mão esquerda e cravou as quatro linhas de prata do braço direito diretamente sobre a ferida negra em seu ombro.

— Acolha o fardo do rei.

A carga da Geada Negra invadiu o sistema de Elena como uma avalanche de agulhas de diamante.

A dor fez o sangue subir à garganta de Elena. As quatro linhas em seu braço direito estalaram, vibrando em uma nota límpida e aguda que fez as gárgulas no ar paralisarem por uma fração de segundo. Mas o Espelho Cósmico não se rompeu: ele absorveu a maldição inteira do coração de Torstein em dois batimentos cardíacos.

A pele do rei recuperou a cor quente de guerreiro; a força bruta voltou aos seus pulmões em uma puxada desesperada de ar.

Elena ergueu-se e virou-se para a nevasca.

No centro do pátio congelado, pairando a dez metros do chão sobre um vórtice de gelo negro, estava Ymir, o Segundo Soberano do Abismo.

O monstro tinha a forma de um colosso esguio de gelo vivo, com quatro braços que empunhavam foices de cristal escuro. Em seu peito transparente, pulsava um coração de gelo milenar que irradiava a escuridão que congelava o continente.

— Mais uma carcaça que tenta derreter o inverno eterno — sibilou a voz de Ymir, fria como o vácuo entre as estrelas.

— O seu inverno termina aqui, criatura — respondeu Elena.

Ela estendeu os dois braços abertos para os céus tempestuosos.

— Gavinhas Cósmicas: Retribuição de Descongelamento.

Cinquenta fios de luz prateada e dourada dispararam de seus pulsos, conectando-se a todos os guerreiros feridos caídos no pátio. Elena não atacou com seu próprio éter: ela colheu todo o calor vital, todo o fogo de sobrevivência que aqueles guerreiros nórdicos haviam queimado para resistir à morte, condensou-o em seu espelho e disparou o reflexo concentrado diretamente contra o coração de cristal de Ymir.

O feixe de luz que cortou a nevasca foi tão brilhante que o sol da meia-noite pareceu nascer no meio do pátio.

CABUM.

O raio de puro calor transmutativo atingiu o peito de Ymir.

O Segundo Soberano soltou um grito ensurdecedor quando o coração de gelo negro ferveu instantaneamente. Fissuras de vapor incandescente rasgaram seus quatro braços de cristal; as foices de gelo derreteram em cascatas de água fervente. Em três segundos, o corpo titânico de Ymir implodiu, transformando-se em uma chuva torrencial de água límpida e pedras preciosas de gelo inerte que caíram inofensivas sobre o pátio.

A nevasca cessou. O céu sobre a tundra abriu-se em um azul deslumbrante.

Torstein levantou-se lentamente da neve, olhando para o ombro perfeitamente curado e depois para a mulher de vestidos intactos que limpava os dedos com um lenço de linho.

O rei do norte apanhou seu machado de dois gumes, cravou a lâmina na terra descongelada e dobrou o joelho imenso na presença de Elena.

— Pelo ferro dos meus ancestrais — disse Torstein, a voz rouca de reverência solene. — As legiões da Tundra marcharão sob o seu comando, Grã-Matriarca. Onde o seu espelho apontar, nossos machados quebrarão a terra.

Mas antes que os homens pudessem erguer seus brados de vitória, um falcão mensageiro com penas prateadas desceu dos céus do leste, caindo aos pés de Elena com um cilindro de madeira élfica e uma semente luminosa de teletransporte amarrados à pata.

Varis quebrou o selo com a ponta da adaga e leu a mensagem em voz alta:

— As barreiras sagradas da Floresta de Syl-Vanna colapsaram. Vorash, o Terceiro Soberano, está devorando as raízes da Árvore da Vida. A Rainha Melisande enviou esta Semente de Passagem para puxar a Grã-Matriarca e sua escolta imediatamente pelas raízes antigas. Se a floresta cair... o oriente virará cinzas em quarenta e oito horas.