Capítulo 24 de 36
Capítulo 24: O Horizonte Partido
A manhã nasceu límpida sobre o Mar da Tempestade.
Pela primeira vez em semanas, os raios dourados do sol tocaram as águas da enseada de Port-Vane sem encontrar a resistência da névoa escura. O mar, antes denso e avermelhado como sangue, havia recuperado sua tonalidade azul-turquesa cristalina; as carcaças dos galeões queimados descansavam sobre praias limpas, cobertas por uma fina camada de sal brilhante que curava o solo onde tocava.
Nas docas reconstruídas às pressas pelas legiões imperiais, os sobreviventes trabalhavam em uníssono. A praga do coral negro havia desaparecido por completo, sem deixar uma única cicatriz na pele dos soldados e cidadãos que Elena salvara.
No alto da falésia, Elena encontrava-se junto ao parapeito da velha catedral.
Seu vestido havia sido substituído por uma túnica de viagem em seda branca debruada com fios de prata, e sobre seus ombros descansava uma capa azul-celeste presa pelo broche imperial do dragão. Em seus braços alvos, os quatro círculos prateados do Espelho Cósmico reluziam discretamente sob a luz da manhã, como constelações gravadas em mármore.
Ao lado dela, o General Kaelen — com o ombro direito já perfeitamente restaurado pelo toque sem cicatriz de Elena e uma nova espada bastarda de aço estelar requisitada na armaria da guarnição imperial presa ao cinto — mantinha a postura ereta e a força renovada no olhar. O Inquisidor Varis desdobrava um grande mapa náutico de pergaminho sobre a mureta de pedra.
— Os sismógrafos do observatório da capital confirmaram — disse Varis, apontando para o centro do oceano no mapa. — A fenda sobre a nossa costa fechou-se com a destruição de Morvath. Mas o perigo não cessou, Elena.
Varis puxou uma adaga de prata e cravou a ponta em quatro outros pontos do mapa continental: ao norte, nas tundras do Império de Ferro; a leste, nas florestas élficas de Syl-Vanna; a oeste, nos desertos das Cidades-Livres; e ao centro, diretamente sobre a cordilheira sagrada que divide as nações.
— A memória que a senhorita arrancou do núcleo de sal de Morvath é real — continuou o inquisidor com a voz sombria. — Ele era apenas o mais fraco dos Cinco Soberanos do Abismo. Os outros quatro já começaram a despertar nos territórios vizinhos. Eles procuram quebrar os Pilares do Mundo para libertar o que dorme sob o manto da terra.
Kaelen cerrou o punho são contra a pedra.
— O imperador Aurelius já ordenou a mobilização de três exércitos imperiais, mas os outros reinos são orgulhosos demais para aceitar conselhos de Sol-Valen. O Rei de Ferro nos considera conquistadores arrogantes, e os elfos fecharam as fronteiras com barreiras de espinhos mágicos. Eles vão cair um a um antes que percebam o tamanho da tempestade.
Elena olhou para o horizonte aberto do mar.
O vento salgado brincava com as mechas castanhas de seus cabelos, mas seu semblante permanecia sereno, destituído de qualquer hesitação ou medo.
— O orgulho dos reis sempre custa o sangue dos seus povos, general — disse Elena, a voz aveludada carregando aquela calma inegociável que comandava legiões. — Eles não precisam aceitar as ordens do Imperador Aurelius. Mas aceitarão a cura quando a agonia bater às suas portas.
Ela virou-se para os dois homens de armas.
— Preparem uma nau rápida com os estandartes do Cálice de Prata rumo às águas polares do norte. Nós não esperaremos os outros soberanos caírem nas cinzas. Se o mundo precisa de um espelho para sobreviver ao abismo... nós levaremos o reflexo até as fronteiras mais distantes deste continente.
Varis e Kaelen curvaram a cabeça em uníssono.
Elena tocou a coroa de espinhos de platina sobre a fronte, apanhou sua bolsa de viagem de couro rústico — onde seu velho almofariz de pedra descansava imaculado — e deu o primeiro passo em direção ao cais da grande expedição.
A herborista de Oakhaven havia curado uma vila, resgatado uma corte e fechado um mar.
Agora, o continente inteiro aguardava o toque de suas mãos.