Capítulo 23 de 36
Capítulo 23: O Primeiro Arauto
Morvath não esperou a mulher dar o segundo passo.
O instinto de preservação de uma entidade que dormira dez mil anos nas profundezas falou mais alto do que seu orgulho cósmico. O arauto flexionou as patas musculosas e impulsionou-se para a frente como um cometa de coral e sombras, a lança de vidro negro apontada diretamente para o coração de Elena com força suficiente para pulverizar a própria montanha.
O ar entre eles arrebentou em um cone de choque sônico.
Elena não desembainhou aço. Não ergueu um escudo de quartzo.
Ela apenas ergueu a mão direita aberta, os dedos delgados estendidos em direção à ponta da lança que se aproximava a cem metros por segundo.
Pá.
O impacto da ponta de vidro negro contra a palma nua de Elena não produziu sangue.
Produziu uma onda de choque de luz prateada que estilhaçou todos os vitrais restantes da catedral em uma tempestade de areia cristalina. O vento gerado pela colisão varreu as aberrações marinhas que rastejavam pelos degraus de entrada e arremessou o teto em ruínas para o abismo lá fora, sem tocar nos guerreiros caídos atrás de Elena.
A lança de Morvath estava congelada no ar, presa a meio milímetro da pele alva da mão de Elena.
O arauto forçou os dois braços com toda a sua potência titânica, seus músculos de coral rangendo como pedras de moinho, mas a lança não avançava um milímetro. Era como tentar empurrar uma muralha que sustentava o próprio firmamento.
— Impossível... — engasgou a entidade, a voz falhando em um gorgolejo de lodo negro. — Uma carcaça humana... não pode conter a fome do Abismo!
— O seu abismo é pequeno, criatura — disse Elena.
Sua voz era suave, aveludada, mas continha a ressonância de uma tempestade celestial.
Sob a pele de seu antebraço, a faixa larga de luz prateada estalou em quatro novos anéis finíssimos que se desenrolaram como espirais cósmicas até a ponta de seus dedos.
O Quarto Círculo.
O Espelho Cósmico havia despertado.
Elena não precisava mais reter o dano em um reservatório frágil sob o risco de rachar seus próprios ossos. O quarto círculo conectava a superfície de seu espelho diretamente ao fluxo primordial da terra e das estrelas: ela não era mais uma taça que transbordava; era um condutor infinito que devolvia a podridão à fonte que a gerara.
— Você passou séculos colhendo o pavor dos náufragos — continuou ela, olhando nos abismos dos olhos do monstro. — Bebeu o choro de marinheiros afogados e usou a agonia deles para vestir esta carapaça de pedra podre.
Ela fechou a mão ao redor da ponta da lança de vidro negro.
CRAC.
A lança milenar desfez-se em pó negro entre os dedos delicados de Elena.
— Chegou a hora de provar de cada gota que você engoliu.
— Retribuição Cósmica.
Elena tocou o peito de Morvath com a ponta do indicador.
Não houve feixe de luz externa. O ataque aconteceu de dentro para fora.
Toda a agonia dos três mil refugiados de Port-Vane, multiplicada pelo eco dos marinheiros afogados que Morvath havia acumulado em sua existência imortal, detonou simultaneamente dentro dos órgãos etéreos do arauto.
O monstro arregalou as órbitas vazias.
Ele não conseguiu soltar um grito. O som que saiu de sua bocarra foi o estalo ensurdecedor de milhares de metros cúbicos de rocha sendo comprimidos no fundo do mar.
A carapaça negra de Morvath começou a clarear, tornando-se branca como calcário calcinado. Fissuras de fogo prateado rasgaram suas asas de coral, seu torso titânico e seus chifres espiralados. O alcatrão que escorria de seus olhos evaporou em nuvens de fumaça perfumada com sal puro e ozônio.
CABUUUUM.
O Primeiro Arauto do Abismo implodiu em um flash silencioso de luz ofuscante.
O corpo gigantesco da entidade desmanchou-se no chão da catedral não como lodo podre, mas como uma montanha de sal marinho brilhante e inofensivo, que o vento da tempestade começou a dispersar suavemente pelo ar da falésia.
O silêncio que se seguiu foi sagrado.
Elena baixou os braços devagar. A respiração dela saiu em uma lufada de vapor quente. As quatro linhas prateadas em seu braço direito acomodaram-se sob sua pele como elegantes braceletes de luz estelar, perfeitamente integrados à sua carne.
Ela virou-se com graça imperturbável.
Kaelen, de joelhos junto à lâmina partida e amparando o ombro sangrando, olhava para ela com lágrimas nos olhos duros de soldado. Ao redor das colunas, os paladinos sobreviventes e os civis curados caíam de joelhos um a um, em um silêncio de reverência que nenhuma ordem militar jamais poderia exigir.
Elena ajeitou a gola rasgada de sua túnica cinzenta, curvou-se diante do monte de sal onde repousava um único cristal translúcido — o núcleo residual de Morvath — e tocou-o com a ponta dos dedos.
Por um segundo fugaz, seu Espelho capturou o último eco da mente da entidade: quatro outras sombras colossais despertando sobre as tundras de gelo, as florestas élficas, os desertos de cinzas e o pico central do mundo.
Ela guardou o cristal na bolsa de couro, retirou um lenço de linho e limpou os vestígios de pó de sal dos nós dos seus dedos.
— A consulta deste monstro terminou — disse ela, a voz calma ecoando sobre as ruínas do templo. — Mas a doença do mundo está apenas começando. Agora vamos cuidar dos nossos homens.