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Capítulo 22: O Sacrifício dos Paladinos
Os portões de bronze da Catedral dos Navegantes não foram abertos: foram arrancados de suas dobradiças de ferro por uma onda de pressão de água negra comprimida.
Os fragmentos de metal voaram pelas naves do templo, cravando-se nas colunas de quartzo.
Na entrada do átrio sagrado, a linha de defesa era composta por vinte homens: o General Kaelen e dezenove Paladinos Silenciosos. Os guerreiros de armadura completa de aço negro mantinham suas lanças pesadas abaixadas em formação de cunha, as solas de suas botas cravadas nas frestas das pedras do piso.
Diante deles pousou Morvath, o Primeiro Arauto do Abismo.
O ser tinha quase três metros de altura. Suas asas não eram de penas, mas de lâminas de coral pontiagudo que raspavam umas nas outras com o som enlouquecedor de ossos sendo triturados. Seus olhos eram dois abismos vazios de onde escorriam lágrimas de alcatrão escuro que sibilavam ao tocar o mármore.
— Que templo ridículo de vidro e esperança — a voz de Morvath não ressoava no ar; ela vibrava diretamente dentro dos crânios dos soldados, com o eco sufocante de mil marinheiros morrendo afogados. — Vocês trouxeram suas carnes feridas para um açougue sagrado.
O monstro avançou.
A lança de vidro negro descreveu um arco horizontal.
O impacto contra os escudos dos paladinos soou como a colisão de dois navios de guerra em alto-mar. As armaduras de três paladinos partiram-se ao meio; os guerreiros foram arremessados contra as paredes laterais, cuspindo sangue negro antes de caírem imóveis sobre as lajes.
Kaelen avançou com um rugido gutural, brandindo sua espada bastarda de aço estelar com as duas mãos.
A lâmina desceu com toda a força de um veterano condecorado, atingindo o ombro de coral do monstro. Fagulhas voaram como fogo de forja, mas o aço estelar não penetrou a couraça abissal: a lâmina quebrou-se a três dedos do punho com um estalo seco.
Morvath riu, um som cavernoso que fez os vitrais da catedral tremerem.
Com a mão livre armada de garras de rocha marinha, o arauto agarrou Kaelen pela couraça do peito e cravou a ponta de sua lança de vidro através do ombro direito do general, suspendendo o guerreiro de cem quilos no ar como se fosse um boneco de palha.
— Seu sangue é forte, mortal — zombou o arauto. — Alimentará o coral das fendas por uma década!
No centro do altar, Elena observava a cena com os punhos cerrados sobre a pedra de quartzo.
O santuário de luz estava em seu ponto de saturação máxima. Três mil civis e soldados feridos respiravam sob a cúpula de cura que ela mantinha ativa. Se ela soltasse a conexão do altar para salvar Kaelen, o influxo de dor reprimida mataria metade das pessoas abrigadas na catedral.
Mas se ela não fizesse nada, Kaelen morreria em três segundos e Morvath pisaria sobre o altar.
Elena não hesitou.
Ela deu dois passos para longe do altar.
Em vez de desfazer o santuário, ela fez algo que nenhum arcanista do império jamais sonhara ser possível: ela puxou a cúpula inteira para dentro de si.
— Concentrar.
O domo de luz prateada e dourada que cobria a montanha colapsou para dentro em uma espiral fulminante de éter, condensando a dor de três mil almas feridas diretamente para o núcleo do Espelho de Espinhos em seu peito.
O ar da catedral foi sugado em um vácuo aterrador.
A túnica cinzenta de Elena rasgou-se nas mangas pela violência da sobrecarga de éter. Sob sua pele alva, as três linhas de prata nos braços começaram a girar em velocidade alucinante, fundindo-se em uma única faixa larga de luz estelar incandescente que iluminou todo o templo em um branco celestial.
O sangue jorrou do nariz e do canto da boca de Elena, mas sua postura permaneceu rígida como a mais pura escultura de uma deusa de guerra.
Morvath parou. O monstro largou Kaelen no chão ensanguentado e virou a cabeça monstruosa para o altar.
Pela primeira vez desde que emergira das profundezas do oceano, as órbitas vazias nos olhos do arauto contraíram-se em uma fagulha de incompreensão e pavor primal.
Ali, no centro do salão, estava uma mulher de vinte anos que sustentava em sua carne frágil o peso da agonia de uma cidade inteira sem cair de joelhos.
— O que você é...? — sussurrou o monstro, a voz perdendo a arrogância.
Elena deu um passo à frente sobre as pedras ensanguentadas, limpando o sangue dos lábios com as costas da mão nua.
Seus olhos castanhos haviam desaparecido por completo. Em seu lugar, ardiam duas estrelas de prata viva, cercadas por anéis concêntricos de fogo negro.
— Eu sou o limite do seu oceano, Morvath — disse ela, a voz soando não mais como um sussurro humano, mas como o coro de milhares de vozes unificadas em uma só sentença. — E a maré agora vai recuar.