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Capítulo 21: O Hospital de Cristal

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Capítulo 21 de 36

Capítulo 21: O Hospital de Cristal


A besta colossal que emergia da baía não atacou as docas de imediato. Ela permaneceu parada nas águas rasas, como um monumento grotesco ao naufrágio do mundo.

Sobre a carcaça de ossos, o Arauto — uma silhueta alta, de aspecto vagamente celestial e aterrador, coroada por chifres de coral espiralado — ergueu sua lança de vidro negro em direção aos céus. Uma canção submarina e dissonante começou a emanar de sua garganta, fazendo o sangue de quem a ouvia escorrer pelas orelhas em filetes finos.

Nas docas, mais de duzentos feridos caíam em convulsões, acelerando o crescimento dos espinhos negros sob a pele.

— Nós não temos como curá-los um a um! — gritou Varis, segurando-se a uma pilastra de pedra enquanto o chão tremia sob a ressonância da canção do monstro. — Se a senhorita tentar absorver a dor de todos manualmente, o seu receptáculo vai se despedaçar antes da décima pessoa!

Elena olhou para a multidão de cidadãos que gemiam sob o pórtico dos armazéns.

Ela sabia que o inquisidor estava certo. O Espelho de Espinhos era uma dádiva divina, mas seu corpo humano continuava sujeito às leis da física e do tempo. Ela precisava de escala. Precisava de um santuário.

Seus olhos subiram as encostas de Port-Vane, fixando-se no topo da falésia mais alta da cidade.

Ali repousavam as ruínas da antiga Catedral dos Navegantes — um templo milenar construído com colunas de quartzo translúcido e vitrais de cristal marinho, abandonado há dois séculos.

— General Kaelen! — ordenou Elena, sua voz cortando o pânico com a precisão de um escalpelo. — Mova todos os feridos e refugiados para a catedral no topo do penhasco! Formem a linha defensiva nas escadarias de acesso!

— E o porto, Grã-Matriarca?

— Deixem as águas para a besta — respondeu ela, ajustando a coroa de espinhos na cabeça. — O refúgio da vida agora é no alto.

A marcha pelas escadarias de pedra da falésia foi uma provação de sangue e ferro.

Enquanto a retaguarda de Kaelen enfrentava as primeiras aberrações rastejantes que subiam da praia, Elena adentrou o recinto sagrado da catedral em ruínas. O teto desmoronara em parte, mas as doze colunas de quartzo permaneciam firmes, e os vitrais de cristal refletiam a luz tempestuosa em feixes de prata fosca.

Elena caminhou até o centro do altar de mármore branco.

Ela abriu sua bolsa de couro e retirou de lá o antigo almofariz de pedra de Oakhaven. Pousou-o com solenidade sobre a pedra do altar, ao lado de três frascos de seiva pura de raiz-de-prata e um cantil de água benta imperial.

Ela cortou a palma da mão direita com a borda de uma folha de espinho sagrado.

Uma única gota de seu sangue — agora mesclado com o brilho dourado da linhagem de dragão que absorvera de Aurelius — pingou no fundo do almofariz de pedra.

— O Espelho não tem paredes — sussurrou Elena, fechando os olhos e respirando o ar puro da serra. — O Espelho é o refúgio dos que não têm voz.

Ela pousou as duas mãos sobre o altar.

As três linhas de prata em seus antebraços inflamaram-se em um brilho ofuscante que iluminou todo o penhasco.

Ressonância Total.

A luz prateada e dourada disparou do almofariz, correu pelas lajes do piso e subiu pelas doze colunas de quartzo da catedral. Os vitrais de cristal marinho vibraram, transformando-se em espelhos etéreos gigantescos que projetaram uma cúpula de luz suave e transparente sobre todo o topo da montanha.

O Hospital de Cristal estava aberto.

Assim que a cúpula se fechou, os feridos que entravam carregados nas macas sentiram o alívio imediato. O ar dentro da catedral tornou-se puro, cheirando a lavanda e chuva fresca de primavera.

Nas centenas de corpos infectados pelo coral negro, os espinhos pararam de crescer. Pequenos fios invisíveis de prata desceram da abóbada de luz, conectando-se suavemente ao peito de cada um dos soldados feridos, drenando a dor e a podridão em um fluxo contínuo e equilibrado que convergia para o altar de Elena.

O peso no peito de Elena tornou-se colossal, mas o santuário distribuía a tensão pelas pedras sagradas da montanha.

Mas a trégua durou pouco.

Um estrondo abalou a falésia inteira.

A carcaça colossal de ossos colapsou contra as rochas do sopé, e o Primeiro Arauto do Abismo — a figura alada de coral e névoa — elevou-se no ar tempestuoso, descendo como um raio negro diretamente em direção aos portões da catedral.

A lança de vidro negro apontava diretamente para o coração de Elena.