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Capítulo 20: A Praga do Coral Negro

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Capítulo 20 de 36

Capítulo 20: A Praga do Coral Negro


O primeiro impacto nas docas de Port-Vane foi um turbilhão de gritos e ferro colidindo.

A falange de Kaelen desceu a ladeira em formação de tartaruga, os escudos pesados de aço estelar trancados lado a lado para conter a onda de refugiados ensandecidos e barrar o avanço das criaturas que rastejavam das marés.

Elena desceu logo atrás, protegida pela guarda do general.

O piso do cais estava escorregadio de lodo negro e sangue frio. A cada dez passos, homens e mulheres jaziam contra os muros do armazém, arranhando a própria pele enquanto brotos pontiagudos de coral negro rasgavam seus músculos de dentro para fora. A infecção era rápida como fogo em feno seco: onde a água do mar tocava uma ferida aberta, os ossos começavam a calcificar em espinhos marinhos.

Um jovem lanceiro da guarda de Kaelen tropeçou na beira do dique.

Uma garra de coral, impulsionada por um marinheiro afogado cujas feições haviam se fundido a uma carapaça de cracas negras, emergiu da água ensanguentada e cravou-se no tornozelo do soldado.

— Aaaaaagh! — o rapaz gritou quando a armadura de metal arrebentou como casca de noz.

Em menos de três segundos, veias negras como fuligem subiram por sua canela. A pele do rapaz endureceu, transformando-se em pedra áspera e quebradiça. Seus olhos começaram a embaciar em um cinza leitoso.

— Cortem a perna dele! — berrou um sargento ao lado, erguendo o machado de batalha. — Antes que chegue ao coração!

— Afaste o machado — ordenou Elena, surgindo entre os escudeiros com passos leves e decididos.

Ela ajoelhou-se diretamente no lodo ensopado de água do mar, ignorando a lama que manchava o veludo de sua túnica cinzenta. Sem hesitar por um único milissegundo, pousou a mão nua sobre o coral negro que perfurava a carne do lanceiro.

Contato.

— Acolha.

Uma sensação estarrecedora explodiu na alma de Elena.

Não era a dor simples de uma lâmina ou a queimação química de um veneno alquímico. Era o peso sufocante de centenas de metros de água salgada, a escuridão absoluta do leito oceânico e o eco desesperado de milhares de homens que haviam morrido afogados nas profundezas ao longo de séculos.

Aquele coral era a matéria física do desespero marinho.

As três linhas de prata em seus antebraços arderam como se metal fervente estivesse sendo despejado sobre sua carne. A dor arrancou um suspiro agudo de seus lábios; suas têmporas latejaram com tanta força que o som do mar distante quase se apagou.

Mas Elena manteve os dedos firmes sobre a pedra negra.

Transmutar.

O coral incrustado na perna do soldado perdeu a cor de ébano, clareando rapidamente para um cinza fosco e, em seguida, desintegrando-se em pó de sal branco inofensivo. A carne lacerada fechou-se com um silvo suave de vapor puro. O rapaz parou de gritar, a respiração voltando ao ritmo normal enquanto ele olhava atônito para o tornozelo perfeito e sem marcas.

Elena ergueu-se devagar. O fardo daquela dor acumulada pesava em seu Espelho de Espinhos, exigindo uma válvula de escape antes que as fissuras rasgassem seus próprios órgãos.

Ela olhou para as águas borbulhantes da enseada.

Uma dúzia de afogados encouraçados de coral avançava pelos degraus do ancoradouro, as mandíbulas abertas em um sibilo de fúria cega.

Elena estendeu a mão direita aberta em direção às ondas.

— Gavinhas de Espinhos.

Vinte fios de luz prateada e violeta dispararam de seus dedos, cruzando o ar úmido como dardos de luz. Os fios tocaram a carapaça dos monstros na água.

Retribuição.

A agonia do afogamento acumulada em seu espelho foi descarregada em dobro.

CRAC-CRAC-CRAC.

Os monstros estacaram no meio do passo. A carapaça de coral que os sustentava explodiu para dentro, pulverizada pela força da retribuição cósmica. As criaturas tombaram nas águas do cais, reduzidas a poeira mineral inerte que a maré levou embora.

Elena limpou uma gota de água salgada da testa com a manga do vestido.

Mas antes que a guarda pudesse comemorar a vitória nas docas, o mar recuou violentamente por cem metros, expondo os corais podres do fundo da baía.

Do meio do abismo escuro que se abriu nas águas, uma criatura de pesadelo começou a emergir.

Uma carcaça colossal de ossos de baleia e lajes de coral negro, com mais de trinta metros de altura, ergueu-se da tempestade. E em seu topo, sustentado por tentáculos de névoa escura, repousava uma figura esguia, envolta em asas de algas petrificadas e portando uma lança de vidro negro.

O Primeiro Arauto do Abismo havia chegado.