Capítulo 19 de 36
Capítulo 19: O Mar que Sangra
A carruagem blindada das legiões imperiais estacou no topo da colina de basalto.
Elena desceu os degraus de ferro, amparada pelo braço do General Kaelen. O vento que subia do oceano não trazia o frescor costumeiro da maresia; cheirava a enxofre podre, gordura de baleia queimada e um ranço ferroso insuportável.
Abaixo deles, a cidade portuária de Port-Vane agonizava.
O céu sobre a enseada havia sido rasgado por uma fenda colossal de relâmpagos púrpuras. Da fenda, uma chuva oleosa e escura caía sem parar sobre os telhados de ardósia, enquanto as águas do Mar da Tempestade haviam assumido a tonalidade espessa de sangue coagulado. Carcaças de galeões mercantes ardiam em chamas esverdeadas sobre os recifes, e gritos desesperados de milhares de refugiados ecoavam pelas docas de pedra.
— Pela deusa... — murmurou o Inquisidor Varis, cobrindo o rosto com a gola de arminho. — O mar está vivo. E tem fome.
Elena caminhou até o parapeito de pedra da estrada costeira. Ela vestia uma túnica de montaria em veludo cinza-chumbo, com uma capa escura impermeável presa nos ombros por fivelas de prata. Em sua fronte repousava a discreta tiara de espinhos de platina, mas seus olhos castanhos estavam fixos no cais principal lá embaixo.
Ali, na praia pedregosa, algo se movia entre os náufragos mortos.
Não eram abutres ou caranguejos. Eram ramificações de uma rocha negra, espinhosa e úmida que brotava de dentro dos próprios cadáveres.
O Coral Negro.
— As catapultas de piche alquímico estão alinhadas nas muralhas altas, Grã-Matriarca — anunciou o comandante da guarnição local, um oficial de rosto sujo de cinzas que se aproximou com a respiração entrecortada. — A infecção do mar passa por qualquer arranhão na pele. Se não incendiarmos o porto agora, com civis e infectados juntos, a podridão subirá as colinas antes da meia-noite!
Kaelen cerrou os dentes, a mão pesada sobre o punho da espada bastarda.
— Há quatro mil civis encurralados contra os diques, seu covarde! Você quer queimá-los vivos para salvar a sua pele?
— Eles já estão mortos, general! — berrou o oficial em desespero. — Veja com seus próprios olhos!
O homem apontou para o sopé das docas.
Três pescadores infectados, com metade dos corpos já petrificada por ramificações de coral negro pontiagudo, rastejavam pelas lajes com movimentos espasmódicos. Seus olhos haviam sido perfurados por pontas de cristal negro que gotejavam uma bile brilhante. Eles não gritavam; soltavam um murmúrio em coro, uma canção submersa que fazia a própria água da chuva vibrar no ar.
— Acendam as catapultas! — ordenou o comandante local aos seus soldados.
— Alto — a palavra cortou o vento.
Não foi um grito. Foi a voz de Elena, límpida, cristalina e impregnada daquela autoridade régia que silenciava conselhos imperiais.
Os artilheiros congelaram com as tochas a meio caminho dos pavios.
Elena deu três passos à frente na chuva oleosa, recolhendo a barra da capa com elegância meticulosa.
— As catapultas permanecerão apagadas, comandante — disse ela, voltando seu olhar gélido para o oficial. — Eu não viajei trinta léguas a galope forçado para ver o império queimar os seus próprios filhos.
— Mas a praga... o contato com o coral é morte certa!
Elena deslizou as luvas de camurça para fora das mãos.
Pela abertura das mangas cinzentas, as três linhas de prata pura gravadas em seus pulsos começaram a girar, desenhando constelações vivas de fogo dourado contra a tempestade.
— A morte é apenas uma opinião da carne, senhor oficial — sussurrou ela. — Agora abram os portões das docas. Eu tenho uma consulta na praia.