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Capítulo 1: O Toque Sem Cicatriz

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Capítulo 1 de 36

Capítulo 1: O Toque Sem Cicatriz


O som do pilão de pedra contra o almofariz era compassado. Um ritmo lento, quase hipnótico.

Baque. Rastro seco. Pausa.

Elena observava as folhas secas de raiz-de-prata se desfazendo em um pó fino e esverdeado. O aroma doce e amargo da seiva subia pelo ar morno da botica, misturando-se ao cheiro de chuva fresca que descia das montanhas de Oakhaven. Em suas mãos macias, envoltas em luvas de camurça fina, o peso do instrumento era uma extensão natural dos seus dedos.

Tudo em sua oficina tinha ordem. Os frascos de vidro âmbar alinhados nas prateleiras de carvalho. As tesouras de poda polidas. O silêncio que precedia o crepúsculo.

Até a porta ser arrombada.

O estrondo da madeira batendo contra a parede ecoou como um trovão. O vento úmido invadiu o cômodo, apagando de imediato duas das três lamparinas de óleo.

— Elena! Pela deusa, Elena!

Três homens entraram aos tropeços, enlameados até os joelhos. Dois deles carregavam o terceiro pelos ombros. O rapaz do meio — pouco mais que um garoto de dezenove anos, com a insígnia de batedor da guarda local — tinha a cabeça tombada para trás.

De seu peito, rasgado através do couro batido da armadura, escorria um vermelho escuro e espesso que manchou instantaneamente o piso de pinho encerado.

Elena não deu um passo para trás. Não soltou o pilão com pressa. Ela apenas o pousou na bancada com suavidade milimétrica, sem fazer ruído algum.

— Coloquem-no sobre a mesa longa — disse ela. Sua voz não tremeu. Era límpida, firme, como a água que corre por baixo do gelo. — Afastem os casacos. Abram espaço para o ar.

— Ele não vai aguentar, garota! — rosnou o homem corpulento que amparava o ombro esquerdo do rapaz, soltando-o sem delicadeza sobre o tampo.

Era Boros, um mercenário veterano conhecido nas tavernas da fronteira por sua espada larga e temperamento podre. A bainha pesada batia contra sua perna coberta de cota de malha; seus olhos estavam injetados de adrenalina e medo mal disfarçado.

— Foi um Espreitador das Sombras — continuou Boros, a saliva cuspida enquanto falava aos berros. — As garras pegaram na clavícula até a terceira costela. O garoto está com o pulmão perfurado! Você tem pomada e raiz? Porque se for só chá que você tem aqui, nós perdemos nosso tempo com uma garotinha de boticário!

Elena ignorou o insulto como quem ignora uma rajada de vento insignificante.

Aproximou-se da mesa de carvalho. O jovem batedor engasgava com o próprio sangue. A cada respiração curta, bolhas escarlates estouravam em seus lábios pálidos. A pele dele já assumia o tom cinzento dos que pertenciam mais ao túmulo do que ao mundo dos vivos.

— O veneno da fera já entrou na corrente sanguínea — murmurou ela, avaliando o estrago em dois segundos de observação clínica. — Três minutos. É o que ele tem antes do coração colapsar.

— Então faça alguma coisa! — Boros deu um passo à frente, a manopla de ferro estendida em direção ao ombro de Elena para empurrá-la. — Salve-o ou me dê a tintura de ópio para acabar com isso logo!

Elena virou a cabeça apenas o suficiente para fitá-lo.

A expressão dela permaneceu serena, os olhos castanhos límpidos, sem um traço de rancor ou hesitação. Mas havia algo no fundo daquele olhar — uma frieza tão profunda, tão cristalina — que fez a mão de Boros parar no meio do ar, paralisada por um instinto primitivo de perigo.

— Se tocar em mim outra vez — disse ela em um tom calmo, quase aveludado —, você não sairá andando deste recinto, senhor Boros.

O homem piscou, atordoado pelo atrevimento da mulher, mas antes que pudesse rugir de volta, Elena deu as costas e deslizou as luvas de camurça para fora das mãos.

Pele nua contra carne rasgada.

Elena fechou os olhos. Respirou fundo o ar saturado de ferro e suor.

No centro de seu peito, uma sensação gélida despertou. Uma superfície lisa, polida como a prata mais pura, ergueu-se nas sombras de sua consciência: O Espelho. E ao redor de sua moldura, invisíveis aos olhos mortais, pequenas gavinhas de espinhos negros se desenrolavam, famintas por dor.

Ela tocou o peito do jovem com as duas mãos abertas.

— Acolha — ela sussurrou para si mesma.

O ar na sala estalou. Uma corrente de frio repentino fez a última chama da lamparina vacilar.

Sob os olhos arregalados dos dois homens, o sangue parou de escorrer. As fibras musculares rasgadas do rapaz começaram a se aproximar, tecendo-se no ar como linhas invisíveis de seda. A pele ferida fechou-se com um chiado suave de vapor, lisa, intacta e sem qualquer cicatriz residual — a manifestação pura e silenciosa do seu Toque Sem Cicatriz. As costelas estilhaçadas se realinharam com estalos secos, perfeitos.

Em cinco segundos, o peito do batedor estava absolutamente curado, sem marcas ou cicatrizes. Apenas uma nódoa seca de sangue marcava sua túnica rasgada.

O rapaz soltou um longo e profundo suspiro de ar fresco, a cor rosada voltando às suas bochechas enquanto ele caía em um sono restaurador.

— Deuses do céu... — balbuciou o outro guarda, caindo de joelhos ao lado da mesa. — Um milagre de cura divina... Ela é uma santa...

Mas Elena sentiu o impacto.

A dor do golpe do Espreitador das Sombras não desapareceu no nada. Ela agora repousava dentro dela. O Espelho suportava o peso das garras, o ardor do veneno, a agonia das costelas partidas. O vidro etéreo em seu íntimo rangia, pedindo vazão.

Elena abriu os olhos. O castanho límpido de suas íris estava agora banhado por reflexos prateados, pontilhados de sombras afiadas.

Ela virou-se devagar.

Boros ainda estava ali, a boca entreaberta, olhando para o rapaz curado e depois para Elena. Mas o choque inicial rapidamente se transformou em desconfiança animalesca.

— Isso não é oração de templo — rosnou o mercenário, dando meio passo à frente e levando a mão ao punho da espada. — Não houve luz dourada. Não houve prece. Você é uma bruxa. O que você acabou de fazer aqui, garota?

Ele sacou quatro dedos da lâmina de aço para fora da bainha. O som do metal arranhando ecoou pela sala.

— Eu disse para não avançar — murmurou Elena.

Ela não ergueu a voz. Não correu. Apenas cruzou as mãos na altura do ventre, em uma postura impecável de dama, e permitiu que a superfície do Espelho se inclinasse em direção a Boros.

Retribuir.

CRAC.

O som de ossos quebrando não veio de Elena.

Veio do peito de Boros.

O mercenário parou no meio do passo. O ar foi expulso de seus pulmões em um engasgo ensanguentado. Seus olhos se arregalaram tanto que as veias quase estouraram. Três cortes profundos e invisíveis rasgaram sua cota de malha e o couro grosso como se fossem papel de seda, abrindo seu peito de ponta a ponta.

O homem caiu de joelhos com um estrondo de ferro, as duas mãos apertando a ferida idêntica à que o batedor carregava segundos antes.

— O... o que você... — ele vomitou sangue no chão.

O silêncio na botica tornou-se sufocante. Apenas o som ritmado da chuva do lado de fora preenchia a penumbra.

Elena caminhou até a pia de pedra. Pegou uma toalha de linho branco e começou a secar os dedos com gestos meticulosos e elegantes, sem que um único fio de cabelo estivesse fora do lugar.

Ela olhou por cima do ombro para o homem contorcendo-se no piso.

— A consulta do garoto está paga — disse Elena com uma voz calma, cortante como o gelo da montanha. — Agora, senhor Boros... se quiser sobreviver até o amanhecer, sugiro que me diga exatamente quem mandou vocês trazerem aquela fera para os limites da minha vila.