Capítulo 18 de 36
Capítulo 18: A Coroa dos Espinhos
A alvorada que rompeu sobre Sol-Valen lavou os vestígios da noite de sangue com uma luz dourada e purificadora.
A purga do palácio fora rápida e impiedosa. Sob o comando firme do General Kaelen e do Inquisidor Varis, cada um dos conspiradores ligados a Malakar e aos nobres traidores fora desarmado e encarcerado nas masmorras de ferro sob a cidade. A Princesa Lyanna fora formalmente apresentada ao Senado como a herdeira legítima da coroa, sob os aplausos fervorosos de uma corte que aprendera o custo de desafiar a linhagem imperial.
Mas a verdadeira coroação daquela manhã não pertencia a uma princesa.
No Grande Salão do Trono, diante de toda a nobreza imperial, do clero dos templos arcanos e dos generais das legiões, o Imperador Aurelius IV estava de pé em toda a sua glória restaurada.
Elena encontrava-se diante dele, no centro do tapete vermelho-escuro.
Suas roupas haviam sido trocadas por um vestido de seda platinada com detalhes bordados em fios de ônix, e em seus antebraços alvos reluziam com nitidez absoluta os três círculos de prata do Espelho de Espinhos. Ela não carregava adagas, cetros ou escudos, mas sua presença silenciosa impunha mais reverência do que o brilho de mil baionetas.
O imperador desceu os três degraus do estrado de quartzo.
Para o espanto paralisante de todos os ministros e duques presentes, o governante supremo do continente flexionou o joelho direito e curvou a cabeça diante da jovem herborista de Oakhaven.
— O império esteve à beira do abismo das cinzas — disse a voz trovejante de Aurelius, ecoando pelos pilares de mármore. — Os deuses nos abandonaram e os nossos eruditos fugiram com medo da podridão. Mas uma filha da terra sustentou o peso da coroa quando os nobres a queriam despedaçar.
O imperador recebeu das mãos de Varis uma coroa delicada, forjada em platina pura e entrelaçada por pequenas hastes de espinhos de prata incrustados de diamantes negros.
Ele ergueu-se e pousou a coroa sobre os cabelos castanhos de Elena.
— A partir deste dia, perante os homens e as estrelas, declaro Elena de Oakhaven como a Grã-Matriarca Soberana dos Mártires e Guardiã Suprema do Sangue Imperial. Nenhuma lâmina poderá tocá-la, nenhuma lei do Senado poderá julgá-la, e a sua voz terá o mesmo peso que o selo da coroa em todo o território de Sol-Valen.
Um clamor ensurdecedor explodiu no salão.
Centenas de punhos bateram contra peitorais de ferro; as damas da corte inclinaram-se em reverências profundas. A garota que macerava ervas em um almofariz de pedra em uma cabana de fronteira era agora a autoridade médica e arcana suprema da civilização conhecida.
Elena inclinou a cabeça com serenidade régia, aceitando o fardo sem soberba.
❖ ❖ ❖
Horas mais tarde, no silêncio da torre mais alta dos seus novos aposentos na Cidadela Imperial, Elena estava diante do parapeito de mármore, fitando o horizonte sem fim das montanhas do norte.
O vento da tarde soprava seus cabelos e a fita de veludo de seu vestido platinado. Em suas mãos macias, ela segurava o mesmo velho almofariz de pedra que a acompanhara desde Oakhaven. Uma lembrança de onde viera e do que suas mãos eram capazes de fazer.
Uma batida apressada na porta quebrou seus pensamentos.
Varis e o General Kaelen entraram sem o protocolo habitual. A expressão nos rostos dos dois guerreiros experientes estava desprovida de qualquer traço da celebração da manhã.
— Elena — chamou Varis, a voz falhando em um tom de urgência terrível. — Olhe para o sul.
Elena cruzou a galeria circular da torre até o parapeito oposto e ergueu os olhos para além das muralhas da capital, em direção ao horizonte sul, onde repousavam as águas distantes do Mar da Tempestade.
O céu sobre o oceano não era azul.
Uma fenda colossal, rasgando o tecido da própria realidade em veias de um vermelho escarlate e púrpura doentio, abriu-se entre as nuvens com o som estrondoso de mil trombetas de bronze. Do meio da fenda, uma névoa espessa e escura começou a chover sobre as cidades costeiras.
O Terceiro Círculo no pulso de Elena começou a arder com uma intensidade que ela jamais sentira.
Não era a dor de um homem. Não era a maldição de um monarca.
Era o lamento desesperado de milhares de almas morrendo simultaneamente nas províncias do sul.
— Os sismógrafos do observatório entraram em colapso — disse Kaelen, com a mão tremendo sobre a bainha da espada. — A maldição de cinzas que Malakar plantou no imperador... não era um plano isolado. Era apenas um farol de atração. As entidades ancestrais que dormiam no Abismo do Mar despertaram.
Elena olhou para a fenda que sangrava escuridão sobre o continente.
Depois, olhou para os três círculos de prata gravados em sua carne.
Ela não recuou. Pousou o almofariz de pedra sobre a mesa de mármore, ajeitou a coroa de espinhos sobre a fronte e respirou fundo o ar carregado de eletricidade.
— Convoquem as legiões de guerra e preparem os frascos de seiva pura, general — disse Elena, a voz límpida e afiada como uma lâmina de gelo. — Porque se as profundezas querem derramar sua podridão sobre este mundo... elas descobrirão que o meu espelho é grande o suficiente para engolir um abismo inteiro.