Capítulo 17 de 36
Capítulo 17: A Purificação do Dragão
O silêncio que caiu sobre o Grande Salão foi mais aterrorizante do que o tilintar de cem espadas.
Diante do trono de quartzo, atravessando as portas recém-abertas e apoiado em uma espada de guerra de dois metros de comprimento, estava o Imperador Aurelius IV.
Sua armadura cerimonial de dragão dourado brilhava sob os candelabros. Ele ainda tinha metade do peito coberto pelas cinzas cinzentas da maldição, e suas pernas vacilaram no primeiro degrau sob o peso esmagador da queimação ancestral. Mas nos olhos do monarca ardia o fogo indomável dos soberanos conquistadores.
Antes que os besteiros de Malakar pudessem reagir, Elena moveu-se.
Ignorando as armas apontadas e amparada pelo escudo reluzente de Kaelen que abria passagem entre as mesas em pânico, Elena subiu com passos ágeis e solenes os degraus de mármore do estrado imperial, posicionando-se a três passos de Aurelius.
As mangas de seu vestido azul-escuro já estavam arregaçadas até os cotovelos. Ao redor de seus antebraços, as marcas prateadas não eram mais apenas duas linhas; elas giravam em uma espiral viva de luz e espinhos etéreos, conectando-se diretamente ao coração do soberano por um canal contínuo de sustentação vital.
Elena estava absorvendo o fardo da maldição segundo a segundo para mantê-lo de pé.
O sangue pingava do nariz de Elena, e sua pele estava tão alva quanto mármore recém-cortado, mas seus olhos brilhavam com uma determinação inabalável.
— O trono nunca esteve vago, Malakar — a voz de Aurelius ecoou pelas abóbadas de ouro com a potência de um trovão ancestral.
O Grão-Chanceler deu três passos para trás, a espada trêmula em suas mãos finas. O pavor desfigurava suas feições aristocráticas.
— Impossível... — balbuciou o traidor. — Você deveria estar em cinzas... a Âncora de Sangue deveria ter partido o seu coração há duas horas!
— Ele estaria — disse Elena, dando um passo à frente do soberano.
A voz dela era suave, mas carregava o peso de uma tempestade represada.
— Se o senhor compreendesse a natureza da dor, lorde Malakar, saberia que nenhum veneno é eterno quando encontra um espelho disposto a refletir o seu peso.
Elena ergueu as duas mãos abertas em direção ao chanceler.
O limite de seu receptáculo havia chegado ao ponto crítico. O fogo da maldição do dragão que ela bebera nos aposentos reais ardia em sua alma como uma fornalha celestial. As duas linhas de prata em seus braços estalaram com o som de vidro partindo-se.
Romper.
Uma terceira linha — mais larga, brilhando em prata pura e chamas douradas — gravou-se permanentemente ao redor de seus pulsos.
O Terceiro Círculo.
O Espelho de Espinhos não suportava mais apenas dores humanas. Ele agora regia as maldições dos próprios reis.
— Retribuição da Âncora.
Elena fechou os punhos com força no ar.
O elo invisível que Malakar havia criado entre seu anel de rubi e o coração do imperador foi invertido como uma represa arrebentada. Toda a maldição acumulada, todos os quatro meses de cinzas, agonia e queimação que quase mataram o monarca foram canalizados de volta através da conexão mágica.
Um feixe de luz cinzenta e fogo dourado disparou do peito de Elena diretamente contra o chanceler.
CABUM.
O anel de rubi no polegar de Malakar estilhaçou-se em pó vermelho.
O homem soltou um berro que gelou a alma de todos os presentes no banquete. Ele largou a espada no chão e olhou aterrorizado para os próprios pés.
As solas de suas botas de veludo desfizeram-se em cinzas. A pedra das cinzas subiu por suas pernas em menos de três segundos, petrificando seus músculos, ossos e tendões em uma crosta cinzenta e porosa. A maldição avançou por seu abdômen, atingindo o peito e a garganta enquanto o traidor rastejava em desespero pela escadaria do estrado.
— Piedade... — engasgou Malakar, a boca já se tornando pó. — Elena... cure... quebre o espelho...
Elena olhou para ele lá de cima. A expressão dela era serena, sem crueldade, mas desprovida de qualquer vestígio de condescendência.
— O espelho não perdoa quem alimenta a própria fome com a agonia dos outros, lorde Malakar. Beba até a última gota.
Com um estalo seco de matéria calcinada, a cabeça do Grão-Chanceler transformou-se inteiramente em cinzas estéreis, desmoronando em um monte cinzento sobre as lajes de mármore diante do trono.
Os cinquenta soldados rebeldes largaram suas bestas no mesmo instante, caindo de joelhos com as testas coladas no chão diante da carcaça de seu mestre.
No salão, trezentos nobres curvaram-se em uníssono, aterrorizados e maravilhados.
Ao lado de Elena, o Imperador Aurelius soltou um longo e profundo suspiro de ar limpo. A casca de cinzas que cobria seu peito esfarelou-se e caiu no chão como poeira inofensiva, revelando a pele saudável e intacta por baixo, banhada pelo fulgor dourado de seu éter ancestral.
O dragão do império estava livre.