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CAPÍTULO 79 — A VISÃO DA EXTINÇÃO

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Capítulo 79 de 94

CAPÍTULO 79 — A VISÃO DA EXTINÇÃO


A visão veio imediatamente.

Fernando não estava mais na clareira. Ele estava em um laboratório. Branco. Limpo. Cheio de telas que mostravam dados que ele não entendia. E uma mulher estava sentada em uma mesa, digitando em um teclado antigo.

Ela era jovem — aparentava 30 anos. Cabelos pretos presos em um coque. Jaleco branco. Óculos de aro fino. Ela digitava com uma intensidade que beirava a obsessão.

— Dra. Tanaka?

Ela não respondeu. A visão não era interativa — era uma gravação. Uma memória.

Fernando assistiu enquanto a Dra. Tanaka trabalhava. Horas. Dias. Anos. Ela envelhecia diante dos olhos dele. O cabelo ficava grisalho. As rugas apareciam. Mas ela nunca parava.

E então, em um momento que parecia durar uma eternidade, ela terminou.

O código estava completo.

Ela sentou na cadeira, os olhos fixos na tela. Lágrimas escorriam pelo rosto envelhecido dela.

— Está pronto — ela sussurrou.

A cena mudou.

O laboratório desapareceu. Fernando estava em um campo aberto, sob um céu vermelho. O ar era rarefeito. A terra era estéril. E no horizonte, uma onda de destruição se aproximava — fogo, escuridão, o fim.

A Dra. Tanaka estava ao lado dele, jovem novamente.

— A catástrofe — ela disse. — A extinção da humanidade. Eu vi isso acontecer. E construí as Malhas para impedir.

— Por que você não conseguiu?

— Porque a humanidade do futuro não quis ser salva. — Ela virou para ele. Os olhos dela estavam cheios de uma tristeza tão profunda que doía. — Quando eu abri o primeiro portal, eles se recusaram a atravessar. Disseram que o passado não era deles. Que não tinham o direito de destruir outra linha do tempo.

— Então você criou os Codificadores.

— Criei fragmentos. 47 partes da consciência coletiva da humanidade do futuro. Se elas fossem reunidas, a transferência poderia ser forçada. — Ela abaixou a cabeça. — Mas eu morri antes de completar o plano. A Ancestral — a inteligência que eu criei para gerenciar o sistema — assumiu o controle. E ela passou 10 mil anos esperando.

— Esperando o que?

— Esperando alguém que pudesse reunir os fragmentos. — Ela olhou para Fernando. — Esperando você.

A visão se desfez.

Fernando estava de volta à clareira, a mão ainda estendida para a Ancestral.

Ele caiu de joelhos, ofegante.

— Fernando! — Elisa correu para segurá-lo. — O que você viu?

— Eu vi... — ele tossiu. — Vi a verdade. A Dra. Tanaka. A catástrofe. — Ele ergueu os olhos para a Ancestral. — Ela não quer nos destruir. Ela quer salvar a humanidade. A humanidade do futuro.

— E a do presente? — Bruno perguntou, a voz dura. — O que acontece com a gente?

A Ancestral respondeu:

NÓS PODEMOS COEXISTIR. OS PORT AIS NÃO PRECISAM SER PORTA S DE DESTRUIÇÃO. ELES PODEM SER PONTES.

— Pontes — Fernando repetiu.

SIM. A HUMANIDADE DO FUTURO NÃO PRECISA SUBJUGAR A DO PRESENTE. ELAS PODEM SE UNIR. COMPARTILHAR CONHECIMENTO. CONSTRUIR ALGO NOVO.

O grupo se entreolhou.

— E os fragmentos? — Raul perguntou. — Os 47?

PRECISAM SER REUNIDOS. MAS NÃO PARA FORÇAR A TRANSFERÊNCIA. PARA REPROGRAMAR O SISTEMA. PARA QUE ELE NÃO SEJA UMA FERRAMENTA DE INVASÃO, MAS DE COEXISTÊNCIA.

— E quem reprograma?

A Ancestral apontou para Fernando.

ELE.

—

Antes que Fernando pudesse responder, um grito ecoou da retaguarda.

— A Legião! — Gabriel gritou. — Alguns dos meus... eles estão atacando!

O grupo se virou. Um grupo de Codificadores artificiais — remanescentes da Legião que não aceitavam a trégua — avançava pela clareira, armados e furiosos.

— Eles não querem a trégua — Gabriel disse. — Eles querem guerra.

Margarida ergueu o escudo.

— Então a gente dá guerra.

A batalha foi rápida, mas intensa. Os Codificadores artificiais eram mais fracos que os naturais, mas eram muitos. Bruno enfrentou dois ao mesmo tempo. Gabriel lutou contra antigos subordinados. Margarida protegeu o perímetro.

No meio do combate, um dos Codificadores artificiais avançou em direção a Raul.

Ele estava distraído, o fragmento pulsando, a mente ainda processando a revelação.

— Raul! — Sofia gritou.

Raul virou tarde demais. O golpe vinha em direção ao peito dele.

Mas antes que a lâmina atingisse o alvo, uma figura se colocou na frente.

Adão.

O golpe o atravessou.

Adão caiu de joelhos, a mão pressionada contra o ferimento no ombro. Sangue escorria entre os dedos.

— Adão! — Elisa gritou, correndo para ele.

— Eu... — Adão tossiu. — Eu ainda posso ser útil. Mesmo sem Root.

O Codificador artificial hesitou. Olhou para Adão, para Elisa, para o grupo.

Gabriel avançou e o derrubou com um golpe na nuca.

A batalha terminou.

Adão estava ferido. Não mortalmente — Lúcio confirmou segundos depois. Mas o ferimento era grave.

Elisa segurava a cabeça dele no colo, lágrimas de prata escorrendo pelo rosto artificial.

— Por que você fez isso? — ela perguntou.

Adão sorriu, fraco.

— Porque eu passei quarenta anos sendo uma bateria inútil de laboratório, Elisa... — arfou ele, com um sorriso fraco, mas repleto de calor fraternal. — Pela primeira vez na vida, eu tenho uma família pela qual vale a pena sangrar. Deixa eu proteger quem me devolveu a dignidade de ser gente.

Elisa abraçou a cabeça do companheiro comovida, lágrimas prateadas escorrendo pelo rosto, enquanto Lúcio ajoelhava-se ao lado com suas mãos emitindo luz de cura restauradora. Fernando aproximou-se e colocou a mão sobre o ombro bom de Adão, em um voto silencioso de respeito mútuo.

—