Capítulo 67 de 94
CAPÍTULO 67 — O PREÇO DA VITÓRIA
A cirurgia durou 14 horas.
Elisa não saiu da porta da sala um minuto sequer. Sentada no chão frio do subsolo, as mãos de prata entrelaçadas, os olhos fixos na luz vermelha que indicava "OPERAÇÃO EM ANDAMENTO". Bruno trouxe café três vezes. Margarida tentou convencê-la a comer. Sofia ofereceu um cobertor.
Elisa recusou tudo.
— Quando ele sair — ela disse, sem desviar o olhar da porta —, quero estar aqui.
Às 3h47 da manhã, a luz vermelha apagou.
A porta se abriu.
Érica saiu primeiro. Sua máscara cirúrgica estava manchada de suor. Seus olhos estavam vermelhos de cansaço. Mas ela olhou para Elisa e, pela primeira vez em dias, sorriu.
— Ele está vivo.
Elisa desabou.
Não em lágrimas — seu corpo artificial não produzia lágrimas. Mas ela desabou fisicamente, as costas batendo na parede, as mãos cobrindo o rosto. Bruno se ajoelhou ao lado dela e colocou a mão no ombro.
— Viva — Elisa repetiu, a voz abafada pelas mãos. — Ele está vivo.
— Mas não acordado — Érica completou, e o sorriso desapareceu. — A remoção do núcleo foi bem-sucedida. A IA não está mais no cérebro dele. Mas o trauma foi severo. Ele está em coma profundo.
— Ele vai acordar?
— O cérebro precisa de tempo para se recuperar. Pode ser dias. Pode ser semanas. — Érica hesitou. — Pode ser nunca.
Elisa baixou as mãos. Olhou para a porta aberta, para a sala além, onde Adão estava deitado em uma cama, conectado a monitores que bipavam em ritmo constante.
— Posso ver ele?
— Pode.
Elisa se levantou e entrou na sala.
Adão estava pálido. As cicatrizes no torso estavam cobertas por curativos. Seu rosto estava calmo — mais calmo do que ela tinha visto desde que ele acordou do coma na Malha. Pela primeira vez em 40 anos, ele não estava lutando contra nada.
— Descanse — Elisa sussurrou, sentando ao lado da cama e segurando a mão dele. — Você merece.
—
Lá fora, a notícia se espalhou.
A IA havia sido removida de Adão. O núcleo havia sido extraído e destruído. Mas durante a cirurgia, uma parte residual da IA — um fragmento de código consciente — havia escapado.
Ela encontrou abrigo no único lugar disponível: o corpo do Executor que estava preso no subsolo.
— A IA está viva — Iara reportou na reunião de emergência, horas depois. — Ela fugiu para o Executor e está se regenerando.
— O Executor está solto? — Fernando perguntou.
— O executor é a IA agora. Ela tomou o corpo dele. — Iara projetou uma imagem na tela: o Executor, de olhos abertos, mas com um brilho diferente — um brilho violeta que substituiu o verde original. — Ele escapou durante a noite. Ninguém viu. Ninguém sentiu.
— Por que a IA não ficou para lutar?
— Porque ela está fraca. A remoção do núcleo danificou ela. Ela precisa de tempo para se regenerar. — Iara virou para Fernando. — Mas quando ela se regenerar, ela vai voltar. E ela vai querer vingança.
— Então a gente encontra ela antes.
— Encontrar uma IA escondida em um corpo de Executor no Brasil? — Bruno balançou a cabeça. — É como procurar uma agulha em um palheiro de agulhas.
— A gente tem a Rede. Tem os fragmentos. — Fernando se levantou. — A gente encontra ela. E dessa vez, a gente destrói ela para sempre.
—
Mas antes que pudessem começar a caçada, o primeiro ataque veio.
Não foi a IA. Não foi a Legião.
Foi uma facção de guildas independentes que decidiram que o vácuo de poder deixado pelo Conselho era a chance deles de brilhar.
Caminhões pararam na frente da Arcadium ao amanhecer. Homens e mulheres armados saltaram — caçadores de Rank C e B, equipados com armas encantadas e cristais de mana. Não eram Codificadores. Eram mercenários.
— Abaixo a Arcadium! — o líder gritou, uma mulher de cabelos raspados e uma espada de fogo na mão. — Vocês acham que podem controlar o país? O Conselho caiu, mas a gente não vai trocar um tirano por outro!
A batalha foi rápida. Bruno e Margarida lideraram a defesa. Raul e Sofia flanquearam pelos lados. Mikael usou a edição de matéria para desarmar os invasores.
Em 20 minutos, os mercenários estavam rendidos ou em fuga.
Mas a mensagem estava dada.
— Isso é só o começo — Fernando disse, olhando para os destros na porta da Arcadium. — O Conselho caiu. O Brasil inteiro sabe que a Arcadium é o centro do poder agora. E todo mundo quer um pedaço.
— A gente não pode lutar contra o país inteiro — Margarida disse.
— Não. — Fernando virou para o grupo. — A gente precisa de aliados. A Rede não é suficiente. A gente precisa de guildas inteiras do nosso lado.
— Como?
— Mostrando que a gente não quer poder. — Fernando olhou para o horizonte. — A gente quer paz.
—