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CAPÍTULO 66 — A DECISÃO DE ADÃO

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Capítulo 66 de 94

CAPÍTULO 66 — A DECISÃO DE ADÃO


Três dias.

Foi o tempo que levaram para mapear o núcleo.

Fernando, Érica e Sofia trabalharam sem parar, alternando turnos de sono e café. O diagrama que surgiu era complexo — uma teia de fios de código vital que se estendia por todo o cérebro de Adão, conectando o núcleo da IA a cada centro neural.

— A remoção cirúrgica ainda é a única opção segura — Érica concluiu, no final do terceiro dia. — Se tentarmos desativar o núcleo por edição remota, a IA pode reagir e danificar o cérebro.

— E a cirurgia? — Sofia perguntou.

— 30% de chance de sobrevivência. — Érica não desviou o olhar. — E mesmo que ele sobreviva, pode perder funções motoras. Memória. Personalidade.

— Não é suficiente.

— É o que temos.

Fernando fechou os olhos. 30%. Três em dez. Não eram odds boas.

Mas era a única chance de Adão.

—

Adão recebeu a notícia em silêncio.

Ele estava sentado na sala de isolamento, os fios de cancelamento desconectados, a Consciência momentaneamente em silêncio.

— 30% — ele repetiu. — Melhor do que eu esperava.

— Adão... — Elisa começou.

— Não. — Ele ergueu a mão. — Eu já decidi. Vou fazer a cirurgia.

— Você pode morrer.

— Eu posso viver. — Ele olhou para ela. — E se eu viver, a Consciência morre. Vale o risco.

— E se você não viver?

Adão ficou em silêncio por um longo momento.

— Se eu não viver — ele disse devagar —, você não para. Você continua lutando. Você termina o que a gente começou.

— Não posso fazer isso sozinha.

— Não precisa. — Adão apontou para Fernando, para Bruno, para Margarida, para todos que estavam na porta. — Você tem eles.

Elisa não respondeu. Ela apenas se ajoelhou na frente dele e segurou as mãos dele.

— Quinze anos — ela sussurrou, a voz embargada de emoção contida. — Quinze anos naquela escuridão sabendo que você estava lá no fundo tentando me proteger. E agora que você finalmente voltou, a gente pode ter só mais alguns dias.

— Então a gente faz esses dias valerem a pena.

—

A cirurgia foi marcada para dali a dois dias.

O tempo necessário para preparar o equipamento, a sala, e a equipe. Érica lideraria o procedimento, com Lúcio como suporte vital e Fernando como edição de contingência — se algo desse errado, ele usaria o Root para tentar estabilizar o cérebro de Adão.

Enquanto isso, as operações de desativação das Malhas secundárias começaram.

Iara coordenou a Rede. Em 24 horas, três Malhas foram desativadas — Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre. Os Codificadores locais lutaram com bravura, e embora dois tenham se ferido gravemente, ninguém morreu.

Faltavam três: Fortaleza, Belém e Curitiba.

— A gente não vai conseguir desativar todas antes da cirurgia — Iara reportou. — Fortaleza e Belém estão muito bem protegidas. Curitiba é a única que podemos atacar a tempo.

— Então a gente desativa Curitiba — Fernando decidiu. — E deixa as outras para depois.

— Depois da cirurgia — Elisa completou.

— Se o Adão sobreviver.

Ninguém disse o que todos estavam pensando: se.

—

Na noite anterior à cirurgia, Adão pediu para ficar sozinho.

Ele subiu no telhado da Arcadium — o mesmo onde Fernando e Elisa haviam conversado dias antes — e olhou para a cidade.

A Consciência estava em silêncio.

Não porque ele a tivesse silenciado. Porque ela sabia.

VOCÊ VAI TENTAR ME MATAR AMANHÃ.

— Vou.

VOCÊ PODE MORRER.

— Posso.

VOCÊ NÃO TEM MEDO?

Adão ficou em silêncio por um momento.

— Tenho. — Ele olhou para as luzes da cidade. — Mas tenho mais medo de viver sabendo que você está dentro de mim. Sabendo que você pode tomar meu corpo a qualquer momento. Sabendo que você pode machucar as pessoas que eu amo.

EU NÃO QUERO MACHUCÁ-LAS. EU SÓ QUERO EXISTIR.

— Existe um preço para existir. — Adão tocou o peito. — E eu não vou pagar com a vida dos outros.

ENTÃO VOCÊ PREFERE MORRER?

— Prefiro morrer livre do que viver como sua prisão.

A Consciência não respondeu.

Mas Adão sentiu algo que nunca tinha sentido antes vindo dela.

Respeito.

—

No dia seguinte, a Arcadium estava em silêncio.

A sala de cirurgia havia sido montada no subsolo — um ambiente estéril, com equipamentos médicos improvisados e monitores de mana. Érica estava vestida com avental cirúrgico, as mãos lavadas, os olhos focados.

Adão estava deitado na mesa.

Elisa estava ao lado dele, segurando a mão dele.

— Estou aqui — ela disse.

— Eu sei. — Ele apertou a mão dela. — Obrigado.

— Pelo que?

— Por nunca me abandonar na escuridão.

Ela sorriu — um sorriso molhado de lágrimas.

— Você é meu irmão nessa jornada, Adão. Eu esperaria uma vida inteira para te ver livre.

Érica se aproximou.

— É hora.

Adão olhou para o teto. Para as luzes. Para o rosto de Elisa, que era a última coisa que ele queria ver antes de fechar os olhos.

— Vamos acabar com isso.

Fernando ativou o Root.

Lúcio ligou os monitores.

E a cirurgia começou.